SARAPALHA
Literatura, literatura & literatura. Mas política também, às vezes. Mais história que política... E religião, mas que nos entendamos bem... E filosofia. E meu estado de espírito, quando der na telha. Enfim, um balaio de gatos. Mas com certo método na loucura...
19.3.10
MEMÓRIA

Reproduzo aqui, por vir ao caso, as informações iniciais que nos passa Arthur Campos no início de seu estudo sobre os Oliveira Pena:
"Apesar de incessantes esforços e pesquisas, não consegui conhecer os antecedentes das famílias - Oliveira e Pena.
Por tradição de família, sei que no século dezoito de Portugal vieram três irmãos da família Pena ter à então comarca do Rio das Mortes, na Capital de Minas Gerais.
Os dois apelidos - Oliveira e Pena - encontram-se entrelaçados desde os mais antigos tempos, o que faz crer montarem as alianças entre as duas famílias à época em que ainda habitavam a velha metrópole, época em cuja obscuridade nada foi-me possível lobrigar.
Aqueles três irmãos eram:
1-1 Caetano Fernandes Pena, casado com Ana Maria de Jesus.
1-2 Captm. Antônio Fernandes do Valle, casado e
1-3 um outro, casado." (O modo como se refere ao terceiro irmão não seria uma decorrência da mudança de seu filho para Barbacena, como vimos mais acima?).
É hora de dar uma parada nestas informações, para discorrer um pouco sobre as razões do meu interesse nelas.
Acho prazeroso ter adquirido a habilidade de reconhecer num sobrenome mineiro, em alguns deles, a sua fonte originária no mapa do povoamento das minhas queridas Minas Gerais. Saber, por exemplo, que os Guerra, os Lage, os Martins da Costa, os Dias Duarte, os Magalhães, os Batista Coelho são todos gente do Leste, da região antes coberta de florestas, pelo menos em minha imaginação, nas terras da bacia do Rio Doce, antes habitadas, pelo menos na minha mitologia pessoal, pelos ferozes botocudos.
É claro que nem de longe nada do desejo de vir a topar, numa dada geração, com algum nobre, duque ou barão, capaz de trazer importância para quem muito bem sabe não ter nenhuma.
Acho que foi o Doutor Nava quem me ensinou, numa das páginas de suas magistrais Memórias, que, se temos dois pais e quatro avós, temos de concluir que o número de nossos antecessores genealógicos cresce em proporção geométrica, o que, não fosse a interferência de certos fatores, levaria ao absurdo de haver mais gente no início do mundo do que agora. De forma que, então, a certa altura, temos mil avós, que pulam para dois mil, quatro mil, oito mil, dezesseis mil, à medida que vamos viajando no tempo em demanda do passado. Isto até me dá vontade, agora, de botar no papel um pouco desse cálculo: 1. 2; 2. 4; 3. 8; 4. 16; 5. 32; 6. 64; 7. 128; 8. 256; 9. 512; 10. 1.024; 11. 2.048; 12. 4.096; 13. 8.192; 14. 16.384; 15. 32.768;16. 65.536...
É claro que no meio dessa multidão há de tudo: escroque, falsário, salteador, prostituta, malandro, santo, gente séria, talentos, semi-gênios, toupeiras, assassinos, o diabo...
Mas acho também gostoso imaginar que, tivesse cedido à preguiça e não se dispusesse a ajeitar-se, com banho e troca de roupas, depois de um sábado de muito labutar na enxada e no arado, e não tivesse tocado para o adro da igrejinha onde havia festa e quermesse, o meu 13° avô não teria começado o namoro com a minha 13ª avó e eu não estaria aqui, ou não seria quem sou. Mas é claro que também podemos imaginar que, não fosse a ajuda de um galho providencial no percurso entre o cimo de enorme árvore e o chão, minha décima-milésima avó teria se esborrachado lá embaixo, e adeus Tristão, eu não estaria aqui pra vos contar essa história...
Acho um absurdo, um dos absurdos da vida, ter existido alguém de cuja existência depende a minha, o meu 5° avô por exemplo, em cuja casa eu vivia virtualmente, e, hoje, ignorar o seu nome, nada saber de sua história.
Enfim, coisas de quem não tem muito o que fazer, o que não é bem o meu caso, mas... Uma coisa é certa: é preciso encarar tudo isto "cum grano salis", não levar nada disto muito a sério. Ou levar e não levar. Ser e não ser, simultaneamente...
postado por Tristão #
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