SARAPALHA

Literatura, literatura & literatura. Mas política também, às vezes. Mais história que política... E religião, mas que nos entendamos bem... E filosofia. E meu estado de espírito, quando der na telha. Enfim, um balaio de gatos. Mas com certo método na loucura...

26.2.10

 

MEMÓRIA


Acho que a minha memória, ao contrário do que acontece com muita gente, recua até tempos bastante remotos na minha infância. A minha mãe, por exemplo, não consegue ir além de uma única cena: ela se vê, aos cinco anos de idade, acompanhando o enterro de minha avó Maria José de Oliveira Pena. Para trás, nada. Já interroguei muitas pessoas e a resposta é quase sempre a mesma, suas primeiras lembranças só começam aos 5, 6, 7 anos de idade. É possível que isto esteja ligado a acontecimentos marcantes ocorridos, ou não, nos primeiros anos de vida, a mudanças, ou não, de casa, ou de ambiente. É possível que quando tudo se manteve estável, quando nada vincou os anos que passavam, nenhuma lembrança se fixe na memória. E as recordações só comecem quando tiveram início os choques, as frustrações, ou as alegrias inesperadas, as descobertas. O certo é que me lembro de coisas num tempo relativamente bem recuado. Nada de excepcional, é verdade. Quem sabe não ocorrem casos de mergulho ainda mais profundo na noite dos primeiros tempos?

Acho que a minha lembrança mais antiga é a dos ladrilhos, pretos e brancos, dispostos lado a lado, no chão da casa para onde minha mãe mudou da casa de minha avó paterna, onde estava hospedada, depois que nasci. Aí ela deve ter morado durante o primeiro e o segundo anos de minha vida, isto é, 1937 e 1938. Deve ter sido em 1939 a mudança para a casa onde a minha memória começa a despertar de modo realmente significativo.

Para que melhor se entenda tudo isso, preciso recordar que, quando nasci, meu pai ficou no Rio de Janeiro, de onde só deve ter vindo no final de 1937 ou começo de 1938. O plano, certamente, era de voltar para o então Distrito Federal, comigo e com minha mãe. Aconteceu no entanto ele receber a oferta de um emprego numa das indústrias metalúrgicas de Rio Acima, a maior delas, a Samsa, Sociedade Anônima Metalúrgica Santo Antônio, a empresa dos Giannetti, dirigida pelo Dr. Américo René, mais tarde prefeito de Belo Horizonte, e por seu irmão Orestes Giannetti. Nesta época, parece que a Samsa tinha uma política de constituir um primeiro escalão de funcionários de boa qualidade, tanto na área técnica quanto na administrativa. Segundo minha mãe, foi o senhor Carmindo, o superintendente das oficinas, que fez a oferta a meu pai, logo aceita, pois era uma boa solução para o seu problema de trabalho. Ficava em Rio Acima, junto dos pais e de muitos amigos, além da tranqüilidade do local, adequada para os cuidados com o filho de 1 ano de idade. A minha mãe, costureira, poderia trabalhar em casa mesmo, cuidar pessoalmente de mim, diferentemente do Rio, onde teria de trabalhar fora.

Foi assim, então, que, quando fiz dois anos, nós nos mudamos para a casa em que têm início as minhas lembranças mais antigas, o que significa certamente o despertar da minha própria consciência do mundo, capaz de diferenciar isto daquilo e, por isto mesmo, capaz de ir estabelecendo uma rede cada vez maior de categorias classificatórias, cada uma delas com os seus arquivos. A mudança de casa deve ter influído decisivamente para isto.

A casa fazia parte de um projeto da Samsa de oferecer moradia aos seus funcionários mais categorizados. Um pouco abaixo da nossa já havia uma rua, disposta horizontalmente na elevação do terreno, onde moravam vários deles, dentre os quais me lembro de Waldemar Russo, Waldemar Romaskeivski, que viera ter em Rio Acima, pelo que sei, como conseqüência dos acontecimentos de 19l7 em sua terra. Ele era casado com a dona Ruth, irmã do Benzinho, cunhado de meu pai, e tinha muitos filhos.





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