SARAPALHA

Literatura, literatura & literatura. Mas política também, às vezes. Mais história que política... E religião, mas que nos entendamos bem... E filosofia. E meu estado de espírito, quando der na telha. Enfim, um balaio de gatos. Mas com certo método na loucura...

16.7.09

 

E O CAMPEÃO DA LIBERTADORES???


GALÔÔÔÔ!!! Trem bão, sô. A partir de hoje, sou Estudiantes desde criancinha...

14.7.09

 

PANEM NOSTRUM


DOLOR COMÚN


Cállate, corazón, son tus pesares

de los que no deben decirse, deja

se pudran en tu seno; si te aqueja

un dolor de ti solo no acibares


a los demás la paz de sus hogares

con importuno grito. Esa tu queja,

siendo egoísta como es, refleja

tu vanidad no más. Nunca separes


tu dolor del común dolor humano,

busca el íntimo, aquel em que radica

la hermandad que te liga com tu hermano,


el que agranda la mente y no la achica;

solitario y carnal es siempre vano;

sólo el dolor común nos santifica.



Don Miguel de Unamuno


 

LEMBRANÇAS DO INFERNO


S.S. se via, ou pretendia que os outros o tivessem, como uma pessoa essencialmente ética. Mas se servia dos cargos, públicos, que ocupava, na FCdeBZ e na FFBZ, para operar as suas vinganças pessoais...

 

OS NOVOS INCONFIDENTES 142


ISRAEL SANT'ANA

MESTRE DE MANUTENÇÃO ELÉTRICA —

MINISTÉRIO DA INDÚSTRIA E

COMÉRCIO - MIC

Sanção: Aposentadoria.

D.O.: 06-10-1964, p. 9029.


ITAIR SÁ DA SILVA

Sanção: Suspensão de direitos políticos e

cassação de mandato.

D.O.: 10-11-1966, p. 12991.


ÍTALO DE SOUZA ROCHA

3º SARGENTO — MINISTÉRIO DO

EXÉRCITO

Sanção: Demissão.

D.O.: 14-09-1964, p. 8147.


ÍTALO GASPAROTTI

AGENTE FISCAL DO IMPOSTO DE

RENDA

Sanção: Demissão.

D.O.: 01-10-1964, p. 8838.


ÍTALO GIORDANO

JUIZ DE DIREITO - MT

Sanção: Suspensão de direitos políticos e

demissão.

D.O.: 13-03-1967, p. 3013.


ITAMAR CORREA VIANA

ALMOXARIFE — MINISTÉRIO DA

EDUCAÇÃO E CULTURA - MEC

Sanção: Demissão.

D.O.: 08-10-1964, p. 9140.


ITAMAR MAXIMIANO GOMES

SUBTENENTE — MINISTÉRIO DO

EXÉRCITO

Sanção: Demissão.

D.O.: 16-09-1964, p. 8264.


ITAN DE AZEVEDO PEREIRA

POSTALISTA — MINISTÉRIO DA VIAÇÃO

E OBRAS PÚBLICAS - MVOP

Sanção: Aposentadoria.

D.O.: 09-10-1964, p. 9211.


IVAN ALVES CORREA

AGENTE DE POLÍCIA FEDERAL

Sanção: Demissão.

D.O.: 02-08-1973, p. 7582.


IVAN CAVALCANTI PROENÇA

CAPITÃO — MINISTÉRIO DO EXÉRCITO

Sanção: Reforma.

D.O.: 09-10-1964, p. 9202.


IVAN CHAGAS

3º SARGENTO — MINISTÉRIO DO

EXÉRCITO

Sanção: Demissão.

D.O.: 31-07-1964, p. 6819.


IVAN CORREIA TOLEDO

PREFEITO - INDAIATUBA/SP

Sanção: Suspensão de direitos políticos.

D.O.: 13-06-1964, p. 5049.


IVAN DE LUCENA ÂNGULO

2º TENENTE MÉDICO RNR —

MINISTÉRIO DA MARINHA

Sanção: Demissão.

D.O.: 16-06-1970, p. 4486.


IVAN DE OTERO RIBEIRO

TÉCNICO ESTAGIÁRIO — CENTRAIS

ELÉTRICAS BRASILEIRAS S.A. -

ELETROBRÁS

Sanção: Dispensa de função.

D.O.: 09-10-1964, p. 9225.


IVAN GONÇALVES

2º SARGENTO

Sanção: Reforma.

D.O.: 08-07-1969, p. 5764.


IVAN GONÇALVES CIDREIRA

MINISTÉRIO DA VIAÇÃO E OBRAS

PÚBLICAS - MVOP

Sanção: Demissão.

D.O.: 09-10-1964, p. 9217.

Obs.: Ratificação.


12.7.09

 

RAPOSOS


 

PANEM NOSTRUM


SABEDORIA FINAL

Ora, o passado: só lembrança e dor.
Ora, o futuro: só temor.

Viva o presente!
ccccccccccccccccDe dia: um saco sentado.
ccccccccccccccccÀ noite: pedra deitada.
ccccccccccccccccChega a comida: abra a boca.
ccccccccccccccccVem o sono: feche os olhos.


Po Chu-I (772-846)
em 31 poetas, 214 poemas
do Rigveda e Safo a Apollinaire
uma antologia pessoal de poemas traduzidos,
com notas e comentários de DÉCIO PIGNATARI
Companhia das Letras. São Paulo. 1997.

 

UM GOLPE DE CLASSE


Até 1930, o Estado brasileiro foi liderado por uma oligarquia agro-comercial, na qual predominavam as elites rurais do Nordeste, os plantadores de café de São Paulo e os interesses comerciais exportadores.


Essa oligarquia formou um bloco de poder de interesses agrários, agro-exportadores e interesses comerciais importadores dentro de um contexto neo-colonial, bloco este que foi marcado pelas deformidades de uma classe que era ao mesmo tempo “cliente-dominante”. Foi sob a tutela política e ideológica desse bloco de poder oligárquico e também sob a influência da supremacia comercial britânica nos últimos vinte e cinco anos do século XIX que se formou a burguesia industrial.


Durante a década de vinte, novos centros econômicos regionais foram consolidados sob novas bases econômicas como, por exemplo, um Rio Grande do Sul agrário e um Rio de Janeiro e São Paulo industriais. O sistema bancário, que havia em grande parte se desenvolvido a partir de interesses agrários, concentrou-se principalmente em São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais. Essas mudanças econômicas forçaram um deslocamento do poder político agrário e comercial do Nordeste para a região sudeste do país e das tradicionais elites agrárias para novos grupos urbanos.


Essas mudanças abriram caminho para o surgimento de figuras políticas como as de Getúlio Vargas, João Daudt d’Oliveira, Oswaldo Aranha (Rio Grande do Sul), Vicente Galliez, Valentim Bouças, Ary Frederico Torres (Rio de Janeiro) Roberto Simonsen, Teodoro Quartim Barbosa (São Paulo) e Euvaldo Lódi (Minas Gerais), empresários e políticos que marcaram uma era.


A urbanização e o desenvolvimento industrial exerceram efeitos desorganizadores sobre a frágil estrutura do estado oligárquico. No final da década de vinte, através de um delicado acordo entre os governos estaduais de São Paulo e Minas Gerais (acordo este conhecido como “política do café com leite”, uma modalidade de “Bonapartismo civil” que deu nome ao período), o bloco de poder oligárquico tentou opor-se ao desafio da burguesia e vencer a crise da oligarquia e dos setores cafeeiros em particular. A crise do domínio oligárquico permitiu que pressões cada vez maiores fossem exercidas pela fração industrial, apoiada por outros grupos sociais, principalmente pelas classes médias. A fração industrial formou um bloco burguês que lutou por redefinir as relações de poder dentro do Estado brasileiro, tarefa esta que foi facilitada por pressões sofridas pela economia oligárquica em conseqüência da crise capitalista de 1929.


A burguesia emergente, porém, não destruiu, nem política nem economicamente, as antigas classes agrárias dominantes para impor sua presença no Estado; pelo contrário, aceitou em grande parte os valores tradicionais da elite rural. É irrelevante para efeitos da presente análise saber se isso aconteceu por não ter a burguesia força política ou econômica suficiente para destruir os baluartes políticos e a estrutura sócio-econômica da oligarquia, ou se foi por não querer ou não precisar fazê-lo. O importante é que a burguesia industrial conseguiu identidade política face ao bloco oligárquico e, ao mesmo tempo, estabeleceu um novo “compromisso de classe” no poder com os interesses agrários, particularmente com os setores agro-exportadores. É precisamente através dessa dupla ação que o aparecimento e consolidação da burguesia devem ser entendidos, pois sua ligação umbilical com a oligarquia teria importantes conseqüências históricas, originando o chamado “estado de compromisso” institucionalizado pela constituição de 1934. O governo de Getúlio Vargas teve então de se movimentar dentro de uma complicada trama de conciliações efêmeras entre interesses conflitantes. Nenhum dos grupos participantes dos mecanismos de poder — as classes médias, os setores agro-exportadores, a indústria e os interesses bancários — foi capaz de estabelecer sua hegemonia política e de representar seus interesses particulares como sendo os interesses gerais da nação. O equilíbrio instável entre os grupos dominantes e, mais ainda, a incapacidade de qualquer desses grupos de assumir o controle do Estado em benefício próprio e, ao mesmo tempo, representar o conjunto dos interesses econômicos privados, constituíram elementos típicos da política da década, expressando precisamente a crise da hegemonia política oligárquica, a qual foi marcada pela revolução de 1930.


Apesar de a indústria e de os interesses agro-exportadores haverem estabelecido um “estado de compromisso”, eles tiveram uma coexistência difícil e o período foi marcado por crises contínuas a partir de 1932, o que levou ao estabelecimento do Estado Novo em 1937. Para a burguesia industrial, que estava então afirmando o seu poderio econômico, eram inaceitáveis as dissidências das classes dominantes articuladas politicamente no seu interior, tais como se manifestaram na revolução de 1932 ou no movimento fascista (integralismo) da metade da década de trinta e que impregnou a ideologia nacionalista daquele período. Além disso, reações organizadas por parte das classes subordinadas como, por exemplo, o levante comunista de 1935, a formação de uma Frente Nacionalista Negra em meados da década de trinta, ou a criação da Aliança Nacional Libertadora tinham de ser reprimidas. Os industriais perceberam que precisavam de uma liderança forte para conseguir disciplinar o esforço nacional e para impor e administrar sacrifícios regionais e de classe apropriados para a consolidação da sociedade industrial.


O “estado de compromisso”, forjado no processo sócio-político do início da década de trinta, foi então remodelado a partir das experiências de um novo Estado traduzido pelas formas corporativistas de associação e apoiado por formas autoritárias de domínio. O Estado Novo surgiu porque a burguesia industrial se mostrou incapaz de liderar os componentes oligárquicos do “estado de compromisso” ou para impor-se à nação através de meios consensuais, de maneira a criar uma infra-estrutura sócio-econômica para o desenvolvimento industrial. O Estado Novo garantiu a supremacia econômica da burguesia industrial e moldou as bases de um bloco histórico burguês, concentrando as energias nacionais e mobilizando recursos legitimados por noções militares de ordem nacional e de progresso cujos interesses pela industrialização mutuamente reforçavam os interesses dos industriais. Sob a égide do Estado Novo, industriais e proprietários de terra tornaram-se aliados. Contudo, a convergência de interesses não se dissolveu em identidade de interesses. Conflitos e tensões marcaram o seu relacionamento, e foi esse elemento de competição mútua que tornou possível, e até mesmo necessário, que o aparelho burocrático-militar do Estado Novo tivesse um papel de intermediário, o que favoreceu uma interferência contínua das Forças Armadas na vida política da nação. A intervenção do aparelho burocrático-militar na vida política assegurava a coesão do sistema, ao mesmo tempo em que se tornava um fator de perturbação nas tentativas de uma institucionalização política a longo prazo.



René Armand Dreifuss

em 1964: A Conquista do Estado

ação política, poder e golpe de classe

Vozes. Petrópolis. 1981.


11.7.09

 

PANEM NOSTRUM

[...]

Não é pois todo amor alvo divino,
e mais aguda seta que o destino?

Não é motor de tudo e nossa única
fonte de luz, na luz de sua túnica?

O amor elide a face... Ele murmura
algo que foge, e é brisa e fala impura.

O amor não nos explica. E nada basta,
nada é de natureza assim tão casta

que não macule ou perca sua essência
ao contato furioso da existência.

[...]


Carlos Drummond de Andrade
em “Relógio do Rosário”, fragmento.

 

MINHA TERRA TEM PALMEIRAS


LEMBRANÇAS DA FAZENDA


Na fazenda havia muitos patos. As patas sumiam, iam fazer seus ninhos numa ilha lá em cima. Quando os patinhos nasciam, elas desciam o rio à frente de suas pequenas esquadrilhas amarelas e aportavam gloriosas no terreiro da fazenda. Apareceu uma romã de-vez com sinal de mordida de criança. Um menino foi acusado. Negou. A prima já moça pegou a romã, meteu na boca do menino, disse que os sinais dos dentes coincidiam. O menino continuou negando, fez má-criação, foi preso na despensa. Ficou chorando, batendo na porta como um desesperado para que o tirassem daquele lugar escuro. Ninguém o tirava. Então começou, em um acesso de raiva, a derrubar no chão sacos de milho e arroz. Estranharam que ele não estivesse mais batendo, e abriram a porta. Escapou com a violência de uma fera acuada que empreende uma surtida.


As primas da roça passavam no meio da boiada sem medo nenhum, mas os meninos da cidade ficavam olhando a cara dos bois e achavam que os bois estavam olhando para eles com más intenções. A linguagem crua das moças da roça sobre a reprodução dos animais os assustava.


Na outra fazenda havia um córrego perdido entre margens fofas de capim crescido. O menino foi tomar banho, voltou com cinco sanguessugas pegadas no corpo. Havia um carpinteiro chamado “seu” Roque e uma grande mó de pedra no moinho de fubá onde a água passava chorando. Quando pararam o moinho, veio um silêncio pesado e grosso dos morros em volta e caiu sobre todas as coisas.



Rubem Braga

em Ai de Ti, Copacabana

Sabiá. Rio de Janeiro.

5ª edição. 1969.


9.7.09

 

ESSA É DO EÇA


 

PANEM NOSTRUM


CABECEIRA

Intratável.
Não quero mais pôr poemas no papel
nem dar a conhecer minha ternura.
Faço ar de dura,
muito sóbria e dura,
não pergunto
“da sombra daquele beijo
que farei?”
É inútil
ficar à escuta
ou manobrar a lupa
da adivinhação.
Dito isto
o livro de cabeceira cai no chão.
Tua mão que desliza
distraidamente?
sobre a minha mão.


Ana Cristina Cesar

 

VOZES DO GOLPE


Voltamos para casa. Drummond, com aquela famosa cabeça baixa, como se estivesse pisando em chão de ferro, ferro de Itabira. Reparei que ele estava contraído, o maxilar inferior tenso, fazendo estremecer a carne de seu rosto magro. Não sei em que estaria pensando. Ou melhor: sabia.


Continuamos em silêncio, nada havia a comentar. Ele me deixou em casa, elogiei-lhe o imenso guarda-chuva. Convidei-o a subir para tomar um café, ele agradeceu e recusou.


Na minha ausência de casa, haviam telefonado do jornal perguntando se eu mandaria alguma crônica para o dia seguinte. Eu estava de recesso, desde o dia 13 não escrevia nada. O Aloísio Gentil Branco, secretário da redação, sugeria que eu escrevesse alguma coisa.


Sentei-me no escritório, abri a Remington semiportátil que estivera desativada durante quase três semanas e escrevi:


DA SALVAÇÃO DA PÁTRIA


Posto em sossego por uma cirurgia e suas complicações, eis que o sossego subitamente se transforma em desassossego: minha filha surge esbaforida dizendo que há revolução na rua.


Apesar da ordem médica, decido interromper o sossego e assuntar: ali no Posto Seis, segundo me afirmam, há briga e morte. Confiando estupidamente no patriotismo e nos sadios princípios que norteiam as nossas gloriosas Forças Armadas, lá vou eu, trôpego e atordoado, ver o povo e a história que ali, em minhas barbas, está sendo feita. Vejo um heróico general à paisana, comandar alguns rapazes naquilo que mais tarde o repórter da TV Rio chamou de “gloriosa barricada”. Os rapazes arrancam bancos e árvores. Impedem o cruzamento da Avenida Atlântica com a Rua Joaquim Nabuco. Mas o general destina-se a missão mais importante e gloriosa: apanha dois paralelepípedos e concentra-se na brava façanha de colocar um em cima do outro.


Estou impossibilitado de ajudar os gloriosos herdeiros de Caxias, mas vendo o general em tarefa aparentemente tão insignificante, chego-me a ele e, antes de oferecer meus préstimos patrióticos, pergunto para que servem aqueles paralelepípedos tão sabiamente colocados um sobre o outro.


— General, para que é isto?


O intrépido soldado não se dignou a olhar-me. Rosna, modestamente:


— Isto é para impedir os tanques do Primeiro Exército!


Apesar de oficial da reserva — ou talvez por isso mesmo —, sempre nutri profunda e inarredável ignorância em assuntos militares. Acreditava, até então, que dificilmente se deteria todo um exército com dois paralelepípedos ali na esquina da rua onde moro. Não digo nem pergunto mais nada. Retiro-me à minha estúpida ignorância.


Qual não é meu pasmo quando, dali a pouco, em companhia do bardo Carlos Drummond de Andrade, que descera à rua para saber o que se passava, ouço pelo rádio que os dois paralelepípedos do general foram eficazes: o Primeiro Exército, em sabendo que havia tão sólida resistência, desistiu do vexame: aderiu aos que se chamavam de rebeldes.


Nessa altura, há confusão na Avenida Nossa Senhora de Copacabana, pois ninguém sabe ao certo o que significa “aderir aos rebeldes”. A confusão é rápida. Não há rebeldes e todos, rebeldes ou não, aderem, que a natural tendência da humana espécie é aderir.


Os rapazes de Copacabana, belos espécimes de nossa sadia juventude, bem nutridos, bem fumados, bem motorizados, erguem o general em triunfo. Vejo o bravo cabo-de-guerra passar em glória sobre minha cabeça.


Olho o chão. Por acaso ou não, os dois paralelepípedos lá estão, intactos, invencidos, um em cima do outro. Vou lá perto, com a ponta do sapato tento derrubá-los. É coisa relativamente fácil.


Das janelas, cai papel picado. Senhoras pias exibem seus pios e alvacentos lençóis, em sinal de vitória. Um Cadillac conversível pára perto do “Six” e surge uma bandeira nacional. Cantam o Hino Nacional e declaram todos que a Pátria está salva.


Minha filha, ao meu lado, exige uma explicação para aquilo tudo.


— É Carnaval, papai?


— Não.


— É campeonato do mundo?


— Também não.


Ela fica sem saber o que é. E eu também fico. Recolho-me ao sossego e sinto na boca um gosto azedo de covardia.



Carlos Heitor Cony

A Revolução dos Caranguejos

vozes do golpe

Companhia das Letras. São Paulo.

2004.


8.7.09

 

PANEM NOSTRUM


Samba-Canção

Tantos poemas que perdi.
Tantos que ouvi, de graça,
pelo telefone — taí,
eu fiz tudo pra você gostar,
fui mulher vulgar,
meia-bruxa, meia-fera,
risinho modernista
arranhado na garganta,
malandra, bicha,
bem viada, vândala,
talvez maquiavélica,
e um dia emburrei-me,
vali-me de mesuras
(era uma estratégia),
fiz comércio, avara,
embora um pouco burra,
porque inteligente me punha
logo rubra, ou ao contrário, cara
pálida que desconhece
o próprio cor-de-rosa,
e tantas fiz, talvez
querendo a glória, a outra
cena à luz de spots,
talvez apenas teu carinho,
mas tantas, tantas fiz...


Ana Cristina Cesar

 

BRASIL POR QUEM VIU


Pela manhã, bem antes do alvorecer, eles vêm, dançam e cantam em redor do tacape com que querem o executar, até que o dia rompa. Tiram então o prisioneiro da pequena choça e derrubam-na, fazendo um espaço limpo. Em seguida desatam-lhe a muçurana do pescoço, passam-lha em volta do corpo retesando-a de ambos os lados. Fica ela então no meio, bem amarrado. Muita gente segura a corda nas duas extremidades. Assim o deixam ficar algum tempo e põem-lhe perto pequenas pedras para que possa lançá-las nas mulheres, que lhe correm em redor, mostrando-lhe com ameaças como o pretendem comer. As mulheres estão pintadas e têm o encargo, quando for ele cortado, de correr em volta das cabanas com os primeiros quatro pedaços. Nisso encontram prazer os demais.


Fazem então uma fogueira, a dois passos mais ou menos do escravo, de sorte que esse necessariamente a vê, e uma mulher se aproxima correndo com a maça, o ibirapema, ergue ao alto as borlas de pena, dá gritos de alegria e passa correndo em frente do prisioneiro a fim de que ele o veja. Depois um homem toma o tacape, coloca-se com ele em frente do prisioneiro, empunhando-o, para que o aviste. Entrementes, afasta-se aquele que o vai matar, com outros treze ou quatorze, e pintam os corpos de cor plúmbea, com cinza.


Quando ele retorna com os seus companheiros para o pátio, aquele que traz o prisioneiro lhe entrega o tacape, em frente ao dito cujo. Vem então o principal da cabana, toma a arma e mete-lha entre as pernas. Consideram isto uma honra. A seguir retoma o tacape aquele que vai matar o prisioneiro e diz: “Sim, aqui estou eu, quero matar-te, pois tua gente também matou e comeu muitos dos meus amigos”. Responde-lhe o prisioneiro: “Quando estiver morto, terei ainda muitos amigos que saberão vingar-me”. Depois golpeia o prisioneiro na cabeça, de modo que lhe saltam os miolos. Imediatamente as mulheres levam o morto, arrastam-no para o fogo, raspam-lhe toda a pele, fazendo-o inteiramente branco e tapando-lhe o ânus com um pau, a fim de que nada dele se escape.


Depois de esfolado, toma-o um homem e corta-lhe as pernas acima dos joelhos, e os braços junto ao corpo. Vêm então as quatro mulheres, apanham os quatro pedaços, correm com eles em torno das cabanas, fazendo grande alarido, em sinal de alegria. Em seguida separam as costas, com as nádegas, da parte dianteira. Repartem isto entre si. As vísceras são dadas às mulheres, Fervem-nas e com o caldo fazem uma papa rala, que se chama mingau, que elas e as crianças sorvem. Comem essas vísceras, assim como a carne da cabeça. O miolo do crânio, a língua e tudo o que podem aproveitar comem as crianças. Quando todo foi partilhado, voltam para casa, levando cada um o seu quinhão.


Quem matou o prisioneiro recebe ainda uma alcunha, e o principal da choça arranha-lhe os braços, em cima, com o dente de um animal selvagem. Quando essa arranhadura sara, vêm as cicatrizes, que valem por ornato honroso. Durante esse dia, deve o carrasco permanecer numa rede, em repouso. Dão-lhe um pequeno arco, com uma flecha, com que deve passar o tempo, atirando num alvo de cera. Assim procedem para que seus braços não percam a pontaria, com a impressão da matança.


Tudo isso vi e assisti.



Hans Staden

em Brasil

A História Contada por quem Viu

Jorge Caldeira (org.)

Mameluco. São Paulo.

2008.


7.7.09

 

PANEM NOSTRUM


Pedra lume

pedra lume

pedra

esta pedra no meio do

caminho

ele já não disse tudo,

então?


Ana Cristina Cesar

 

OS NOVOS INCONFIDENTES 141


IRIS RESENDE MACHADO

PREFEITO - GOIÂNIA/GO

Sanção: Suspensão de direitos políticos e

cassação de mandato.

D.O.: 20-10-1969, p. 8912.


IRMO MARQUES

ARTÍFICE — MINISTÉRIO DA VIAÇÃO E

OBRAS PÚBLICAS - MVOP

Sanção: Demissão.

D.O.: 09-10-1964, p. 9215.


ISAAC SCHEINVERT

ENGENHEIRO

Sanção: Suspensão de direitos políticos.

D.O.: 23-05-1966, p. 5447.


ISAAC SOARES

ADVOGADO

Sanção: Suspensão de direitos políticos.

D.O.: 09-06-1964, p. 4881.


ISAIAS RAW

UNIVERSIDADE DE SÃO PAULO - USP

Sanção: Aposentadoria.

D.O.: 30-04-1969, p. 3669.

Obs.: Republicação D.O.: 20-05-1969.


ISMAEL ANTONIO DE SOUSA

Sanção: Banimento.

D.O.: 13-01-1971, p. 257.


ISMAEL BENIGNO

DEPUTADO ESTADUAL - AM

Sanção: Suspensão de direitos políticos e

cassação de mandato.

D.O.: 14-03-1969, p. 2212.


ISMAEL KOTLER

AGENTE FISCAL DO IMPOSTO DE

RENDA

Sanção: Demissão.

D.O.: 01-10-1964, p. 8838.


ISMAEL LUIZ DO NASCIMENTO

MAQUINISTA — MINISTÉRIO DA VIAÇÃO

E OBRAS PÚBLICAS - MVOP

Sanção: Aposentadoria.

D.O.: 09-10-1964, p. 9211.


ISMAIL FERNANDES

TELEGRAFISTA — MINISTÉRIO DA

VIAÇÃO E OBRAS PÚBLICAS - MVOP

Sanção: Demissão.

D.O.: 08-10-1964, p. 9138.


ISMAR DO NASCIMENTO AMORIM

ENFERMEIRO — COMPANHIA

HIDRELÉTRICA DO VALE DO

PARAÍBA - CHEVAP

Sanção: Dispensa de função.

D.O.: 09-10-1964, p. 9225.


ISNALDO MARTINS DE LYRA

OFICIAL DE ADMINISTRAÇÃO —

MINISTÉRIO DA MARINHA

Sanção: Aposentadoria.

D.O.: 08-10-1964, p. 9135.


ISRAEL BELLOTI DOS SANTOS

2º SARGENTO — MINISTÉRIO DO

EXÉRCITO

Sanção: Reforma.

D.O.: 07-10-1964, p. 9080.


ISRAEL BELOCH

2º TENENTE

Sanção: Demissão.

D.O.: 26-08-1969, p. 7242.


ISRAEL DIAS NOVAES

DEPUTADO FEDERAL - SP

Sanção: Cassação de mandato.

D.O.: 17-01-1969, p. 554.

REDATOR - SP

Sanção: Aposentadoria.

D.O.: 21-07-1970, p. 5403.


ISRAEL GOMES CALDEIRA

TELEGRAFISTA — MINISTÉRIO DA

VIAÇÃO E OBRAS PÚBLICAS - MVOP

Sanção: Demissão.

D.O.: 09-10-1964, p. 9214.


6.7.09

 

NOVA LIMA


 

PANEM NOSTRUM


o poeta é um fin
o poeta é um his

poe
pessoa
mallarmeios

e aqui
o meu

dactilospondeu:

entre o
fictor
e o histrio

eu


Haroldo de Campos

 

VINICIUS


ÁRIA PARA ASSOVIO


Inelutavelmente tu

Rosa sobre o passeio

Branca! e a melancolia

Na tarde do seio.


As cássias escorrem

Seu ouro a teus pés

Conheço o soneto

Porém tu quem és?


O madrigal se escreve:

Se é do teu costume

Deixa que eu te leve.


(Sê... mínima e breve

A música do perfume

Não guarda ciúme.)


Rio, 1936



Vinicius de Moraes

Livro de Sonetos

Companhia das Letras.

São Paulo. 1992.


5.7.09

 

PANEM NOSTRUM


ODE (EXPLÍCITA) EM DEFESA DA POESIA
NO DIA DE SÃO LUKÁCS

os apparátchiki te detestam
poesia
prima pobre
(veja-se a conversa de benjamin
com brecht /
sobre lukács gabor kurella /
numa tarde de julho
em svendborg)

poesia
fêmea contraditória
te detestam
multifária
mais putifária que a mulher de
putifar
mais ofélia
que hímen de donzela
na ante-sala da loucura de hamlet

poesia
que desvia da norma
e não se encarna na história
divisionária rebelionária visionária
velada / revelada
fazendo strip-tease para teus próprios (duchamp)
celibatários
violência organizada contra a língua
(a míngua)
cotidiana

os apparátchiki te detestam
poesia
porque tua propriedade é a forma
(como diria marx)
e porque não distingues
o dançarino da dança
nem dás a césar o que é de césar
(não lhe dás a mínima (catulo):
sais com um poema pornô
quando ele pede um hino

serás a hetaera esmeralda
de thomas mann
a dragonária agônica
de asas de sífilis
?
ou um fiapo de sol no olho
selenita de celan

ana akhmátova te viu
passeando no jardim
e te jogou nos ombros
feito um renard
de prata mortuária

walter benjamin
que esperava o messias
saindo por um minúsculo
arco da história no
próximo minuto
certamente te conheceu
anunciada por seu angelus novus
milimetricamente inscrita num grão de trigo
no museu de cluny

adorno te exigiu
negativa e dialética
hermética prospéctica emética
recalcitrante

dizem que estás à direita
mas marx (le jeune)
leitor de homero dante goethe
enamorado da gretchen do fausto
sabia que teu lugar é à esquerda
o louco lugar alienado
do coração

e até mesmo lênin
que tinha um rosto parecido com verlaine
e que no entanto (pauvre lélian)
censurou lunatchárski
por ter publicado mais de mil cópias
do poema “150.000.000” de maiakóvski
— papel demais para um poema futurista! —
mesmo lênin sabia
que o idealismo inteligente está mais perto
do materialismo
que o materialismo do materialismo
desinteligente

poesia
te detestam
materialista idealista ista
vão te negar pão e água
(para os inimigos: porrada!)
— és a inimiga
poesia

só que um dervixe ornitólogo khlébnikov
presidente do globo terrestre
morreu de fome em santalov
num travesseiro de manuscritos
encantado pelo riso
faquirizante dos teus olhos

e jákobson roman
(amor / roma)
octogenário plusquesexappealgenário
acaricia com delícia
tuas metáforas e metonímias
enquanto abres de gozo
as alas de crisoprásio de tuas paronomásias
e ele ri do embaraço austero dos savants

e agora mesmo aqui mesmo neste monte
alegre das perdizes
dois irmãos siamesmos e um oleiro
de nuvens pignatari
(que hoje se assina signatari)
te amam furiosamente
na garçonnière noigandres
há mais de trinta anos que te amam
e o resultado é esse
poesia
já o sabes
a zorra na geléia
geral
e todo o mundo querendo tricapitar
há mais de trinta anos
esses trigênios vocalistas
/ que idéia é essa de querer plantar
ideogramas no nosso quintal
(sem nenhum laranjal oswald)?
e (mário) desmanchar
a comidinha das crianças?

poesia pois é
poesia

te detestam
lumpenproletária
voluptuária
vigária
elitista piranha do lixo

porque não tens mensagem
e teu conteúdo é tua forma
e porque és feita de palavras
e não sabes contar nenhuma estória
e por isso és poesia
como cage dizia

ou como
há pouco
augusto
o augusto

que a flor flore

o colibri colibrisa

e a poesia poesia


Haroldo de Campos

 

DOM CASMURRO


CAPÍTULO XXVII


AO PORTÃO


Ao portão do Passeio, um mendigo estendeu-nos a mão. José Dias passou adiante, mas eu pensei em Capitu e no seminário, tirei dous vinténs do bolso e dei-os ao mendigo. Este beijou a moeda; eu pedi-lhe que rogasse a Deus por mim, a fim de que eu pudesse satisfazer todos os meus desejos.


— Sim, meu devoto!


— Chamo-me Bento, acrescentei para esclarecê-lo.



Machado de Assis

em Dom Casmurro


4.7.09

 

PANEM NOSTRUM


VARIAÇÕES SEMÂNTICAS
(fragmento)

O ADMIRÁVEL o louvável o notável o adorável
o grandioso o fabuloso o fenomenal o colossal
o formidável o assombroso o miraculoso o maravilhoso
o generoso o excelso o portentoso o espaventoso
o espetacular o suntuário o feerífico o feérico
o meritíssimo o venerando o sacratíssimo o sereníssimo
o impoluto o incorrupto o intemerato o intimorato

O ADMERDÁVEL o loucrável o nojável o adourável
o ganglioso o flatuloso o fedormenal o culossádico
o fornicaldo o ascumbroso o iragulosso o matravisgoso
o degeneroso o incéstuo o pusdentoso o espasmventroso
o espertacular o supurário o feezífero o pestifério
o merdentíssimo o venalando o cacratíssimo o sifelíssimo
o empaluto o encornupto o entumurado o intumorato


Haroldo de Campos

 

VOZES DO GOLPE


O cunhado tinha convidado alguns dos seus novos vizinhos para o churrasco. Gente do condomínio. Um deles era um empresário aposentado, ainda vigoroso nos seus setenta e poucos anos, que apresentou como “Cerqueira, um fera no tênis”. Cerqueira tinha um olhar de águia e uma cara esculpida em pedra, e depois do almoço, numa roda formada por espreguiçadeiras sobre o relvado, declarou para quem ainda estava acordado que não tinha escrúpulo de se declarar um direitista. Era de direita e se orgulhava disso. Marchara pelo Brasil em 64 e marcharia de novo pelos mesmos ideais. E mais. Achava que a história ainda faria justiça à revolução e ao regime militar, que tinham livrado o Brasil do comunismo e da anarquia e modernizado o país.


O cunhado levantou a cabeça, procurou Rogério por cima da borda da sua espreguiçadeira com um olhar malicioso e perguntou:


— Você concorda com isso, Rogério?


— Depois de um churrasco destes, concordo com qualquer coisa.


— Não. Sério.


— Concordo, concordo com tudo.


— Viu só, Cerqueira? O que faz o dinheiro. Nada mais de direita do que um esquerdista que enriqueceu.


Cerqueira não entendeu. Parecia não ter nenhum senso de humor.


— Não tem nada a ver com dinheiro. Não estávamos defendendo o capitalismo. Estávamos defendendo a liberdade. Quebramos algumas cabeças? Quebramos. Mas ninguém recebeu mais do que merecia. Eles queriam uma guerra e tiveram uma guerra. E perderam.


Rogério conseguiu enlaçar Amanda, que passava correndo pela espreguiçadeira junto com um primo e um menino mais velho.


— Me solta, pai!


— Fica um pouquinho com seu pai.


— Não posso!


— Então dá um beijinho.


— Saco. Toma. Pronto.


O cunhado estava contando que Rogério tivera problemas, durante o regime militar.


— Quem é Rogério: — perguntou Cerqueira.


— Eu aqui — disse Rogério, levantando o dedo.


— Sei — disse Cerqueira. E não quis saber dos problemas.


Rogério:


— Ouvi dizer que os empresários tinham um fundo para ajudar na repressão. Um fundo que financiava ações clandestinas.


— Nós ajudamos a reprimir a subversão. Não vou negar. Ajudamos mesmo. Nos engajamos na luta contra o comunismo, e fizemos muito bem. Um dia ainda vão nos agradecer.


Do fundo da sua espreguiçadeira, Rogério não viu quem disse:


— Mas os esquerdinhas estão de volta...


Podia ser o pai da Alice.



Luís Fernando Veríssimo

em A Mancha

vozes do golpe

Companhia das Letras. São Paulo.

2004.


3.7.09

 

PANEM NOSTRUM


o azul é puro?

o azul é pus

de barriga vazia

o verde é vivo?
o verde é vírus

de barriga vazia

o amarelo é belo?
o amarelo é bile

de barriga vazia

o vermelho é fúcsia?
o vermelho é fúria

de barriga vazia

a poesia é pura?
a poesia é para

de barriga vazia


Haroldo de Campos

 

BRASIL POR QUEM VIU


Quando trazem para casa um inimigo, batem-lhes as mulheres e as crianças primeiro. A seguir, colam-lhe ao corpo penas cinzentas, raspam-lhes as sobrancelhas, dançam-lhe em torno e amarram-no bem, a fim de que não lhes possa escapar. Dão-lhe então uma mulher, que dele cuida, servindo-o também. Se tem dele um filho, criam-no até grande, matam-no e o comem quando lhes vem à cabeça.


Dão de comer bem ao prisioneiro. Conservam-no por algum tempo e então se preparam. Para tanto fabricam muitas vasilhas, nas quais põem suas bebidas e queimam também vasilhame especial para os ingredientes com que o pintam e enfeitam. Além disso, fazem borlas de penas, que amarram ao tacape com que o matam. Fabricam também uma longa corda, chamada muçurana. Com esta o amarram, antes de executá-lo.


Assim que tudo está preparado, determinam o tempo em que deve morrer o prisioneiro e convidam os selvagens de outras aldeias para que venham assistir. Enchem então de bebidas todas as vasilhas. Um ou dois dias antes de as mulheres fabricarem as bebidas, conduzem o prisioneiro uma ou duas vezes ao pátio dentre as cabanas e dançam-lhe em volta.


Logo que estão reunidos todos os que vieram de fora, dá-lhes as boas-vindas o principal da choça e diz: “Vinde agora e ajudai a comer o vosso inimigo”. No dia, véspera de começarem a beber, amarram a muçurana em torno ao pescoço do prisioneiro e pintam o ibirapema, a clava, com que o pretendem matar. [...] Os selvagens untam-na com uma substância grudenta. Tomam então cascas de ovo de um pássaro, o macaguá, que são cinzentas, reduzem-nas a pó e espalham isto sobre o tacape. Depois se assenta uma mulher e garatuja nesta poeira de cascas de ovo, que está grudada. Enquanto ela desenha, rodeiam-na, cantando, muitas mulheres.


Estando o ibirapema como deve, ornado com borlas de penas e outros enfeites, ele será pendurado acima do chão, numa vara, numa choça vazia. Os selvagens cantam então, através da noite toda, em volta dessa choça. Do mesmo modo pintam o rosto do prisioneiro, e enquanto uma mulher o pinta, cantam as outras. Quando principiam a beber, levam consigo o prisioneiro, que bebe com eles e com o qual se divertem. Acabada a bebida, descansam no outro dia e constroem para o prisioneiro uma pequena cabana, no local em que deve morrer. Aí ele passa a noite sendo bem vigiado.



Hans Staden

em Brasil

A História Contada por quem Viu

Jorge Caldeira (org.)

Mameluco. São Paulo.

2008.


2.7.09

 

PANEM NOSTRUM


proêmio

mosca ouro?
mosca fosca.

mosca prata?
mosca preta.

mosca íris?
mosca reles.

mosca anil?
mosca vil.

mosca azul?
mosca mosca.

mosca branca?
poesia pouca.


Haroldo de Campos

 

OS NOVOS INCONFIDENTES 140


INDIO BRUM VARGAS

VEREADOR - PORTO ALEGRE/RS

Sanção: Suspensão de direitos políticos e

cassação de mandato.

D.O.: 30-04-1969, p. 3662.

ESCRITURÁRIO — CAIXA ECONÔMICA

FEDERAL - CEF/RS

Sanção: Demissão.

D.O.: 23-07-1970, p. 5477.


INEMAR BAPTISTA PENNA

MARINHO

CAPITÃO-TENENTE

Sanção: Reforma.

D.O.: 26-08-1969, p. 7242.


INOCÊNCIO MOSSELIN

2º SARGENTO — MINISTÉRIO DO

EXÉRCITO

Sanção: Reforma.

D.O.: 09-06-1970, p. 4273.


INOCÊNCIO TIMES SERRES

MECÂNICO DE MÁQUINAS —

MINISTÉRIO DA AGRICULTURA

Sanção: Demissão.

D.O.: 28-09-1964, p. 8685.


IOLANDA AGUIAR

PROFESSORA NÃO DIPLOMADA - RS

Sanção: Rescisão de contrato.

D.O.: 27-10-1969, p. 9211.


IORODEME MACHADO

3º SARGENTO — MINISTÉRIO DO

EXÉRCITO

Sanção: Demissão.

D.O.: 16-09-1964, p. 8264.


IPIRANGA GUARANY

SUBTENENTE

Sanção: Reforma.

D.O.: 21-07-1969, p. 6154.


IRACEMA FERREIRA MAIA

EMPRESAS INCORPORADAS AO

PATRIMÔNIO NACIONAL - EIPN

Sanção: Demissão.

D.O.: 24-07-1964, p. 6595.


IRAN DE JESUS LOUREIRO

MAJOR — MINISTÉRIO DO EXÉRCITO

Sanção: Reforma.

D.O.: 07-10-1964, p. 9077.


IRAN TEIXEIRA DE MELO

SUBTENENTE — MINISTÉRIO DO

EXÉRCITO

Sanção: Demissão.

D.O.: 07-10-1964, p. 9084.


IRANI CAMPOS

Sanção: Banimento.

D.O.: 13-01-1971, p. 257.


IRANY BRIZOLA ROTTA

CAPITÃO — MINISTÉRIO DO EXÉRCITO

Sanção: Reforma.

D.O.: 18-07-1969, p. 6108.


IRAPUAN CORDEIRO

1º TENENTE

Sanção: Reforma.

D.O.: 06-03-1967, p. 2692.


IRÊNIO IGNÁCIO DA SILVEIRA

AGENTE FISCAL DO IMPOSTO DE

RENDA

Sanção: Demissão.

D.O.: 01-10-1964, p. 8838.


IRINEU FERREIRA ALVES

Sanção: Suspensão de direitos políticos e

cassação de mandato.

D.O.: 10-11-1966, p. 12991.


IRINEU JOSÉ FERREIRA

JORNALISTA

Sanção: Suspensão de direitos políticos.

D.O.: 27-02-1967, p. 2359.


1.7.09

 

BELO HORIZONTE


 

JOÃO CABRAL


Miró sentia a mão direita

demasiado sábia

e que de saber tanto

já não podia inventar nada.


Quis então que desaprendesse

o muito que aprendera,

a fim de reencontrar

a linha ainda fresca da esquerda.


Pois que ela não pôde, ele pôs-se

a desenhar com esta

até que, se operando,

no braço direito ele a enxerta.


A esquerda (se não se é canhoto)

é mão sem habilidade:

reaprende a cada linha,

cada instante, a recomeçar-se.



João Cabral de Melo Neto

O Sim contra o Sim

em Antologia Poética

José Olympio. Rio de Janeiro.

Terceira edição. 1975.




 

CAMPOS DE CARVALHO


De outra feita foi uma arquiduquesa húngara, de vida fácil mas não tão fácil quanto parece, e que se apaixonou pelo meu corpo em plena cidade de Cracóvia, oferecendo-me em troca seus belos seios, sua voz de contralto e um perfume de bosque úmido que jamais voltei a encontrar em outra mulher, viva ou morta. Enquanto se contentou em usar do meu corpo como se fora uma propriedade sua, nada tive a objetar-lhe, mesmo porque os tempos eram difíceis e a sua cama e a sua mesa eram perfeitamente desfrutáveis; desde porém que certa noite, entre uma cópula e outra, quis convencer da necessidade de eu participar de um complô terrorista em sua bela pátria, invocando para isso razões sentimentais e outras que não me diziam respeito, abandonei-a imediatamente e num acesso de gargalhadas atirei-lhe com um vaso de flores na cabeça, o que me custou dois dias e meio de prisão.

Também no Conservatório de Varsóvia, onde aprendi a tocar berimbau com o professor Hepsteimm, tive oportunidade de demonstrar, de uma feita, meu irrestrito apego à minha liberdade moral, quando fiz voar pelos ares a tuba e a clarineta da Orquestra Sinfônica Nacional, com um pontapé endereçado a um músico idiota que me chamara de estrangeiro, eu que sou o mais perfeito exemplar de cidadão do mundo de que já se teve notícia até hoje. Criei um ligeiro caso internacional com essa minha atitude ao mesmo tmpo intempestiva e tempestuosa, mas pelo menos me mantive íntegro e soberano em minha profunda individualidade, e não tive por que envergonhar-me depois diante do espelho.

Agora, nesta sexagésima milionésima insônia que atravesso de olhos abertos e coração angustiado, resta-me quando menos esta certeza de que sou realmente eu e mais ninguém — ou, ainda uma vez, eu e o meu irmão gêmeo ainda sepulto em mim e que um dia virá à tona como um náufrago de três dias. As paredes me prendem dentro deste quarto de hotel sem nenhuma beleza proíbem-me por motivos políticos de sair à rua e de saber inclusive em que cidade exatamente estou, eu que sou globe-trotter e amante de todos os horizontes; submetem-me ao vexame de ter que tomar todas as noites uma dose de soro da juventude, eu que nem sequer ainda estou velho e não pretendo jamais voltar a ser jovem algum dia, eu que nunca o fui realmente; espionam-me por todos os cantos e até quando estou a sós dentro do gabinete sanitário, como se eu fosse um criminoso comum e não um hóspede com todos os direitos que a legislação dos hóspedes lhe garante, seja aqui como na Cochinchina; — uma coisa porém eles não me tomam, eles os espiões de todas as nacionalidades, as prostitutas húngaras ou mesmo iugoslavas, os falsos amigos e sobretudo os verdadeiros, os membros de todas as orquestras sinfônicas do universo, os gaiatos da polícia nacional e internacional; os boxeurs e os lutadores de jiu-jítsu de todas as categorias ou faixas: e é esta consciência que trago de eu ser apenas e cada vez mais uma propriedade minha, exclusiva, indivisível, una, prima inter pares, nec plus ultra, e mais citações latinas que se façam necessárias e convenham como fecho a um capítulo tão importante como este, sem dúvida o mais importante que já escrevi e escreverei em toda a minha vida de cavaleiro andante.


Campos de Carvalho
Vida Sexual dos Perus
1ª parte de A Lua Vem da Ásia
em Obra Reunida
José Olympio. Rio de Janeiro.
4ª edição. 2005.

 

VOZES DO GOLPE


Foi o general Muricy quem falou, explicou a situação. Em compensação nós ficamos sem comida e o pessoal estava com fome mesmo, há 24 horas que a gente não sabia o que era comida. Aí nós combinamos, enquanto eles tomavam conta da gente, três ou quatro escapavam e tentavam resolver o problema da alimentação. Alguns ficavam nas filas de rancho das outras unidades; cheio de gente desconhecida, não era difícil conseguir comida, mas era horrível, comida de quartel, e ainda por cima feita na estrada. Quanto chegou a nossa vez de escapulir, encontramos um repórter, acho que da Fatos & Fotos, e ele estava querendo fazer cobertura e não conseguia ninguém pra lhe dizer alguma coisa — aquele papo de militar, tudo é segredo, não se pode contar nada pra civil. Então ele queria que a gente respondesse a umas perguntinhas — respondíamos, sim, mas só se ele pagasse comida. Ele então nos levou para um bar, nos sentamos e pedimos sanduíches de pernil, ele mandou vir dois pra cada um, o pessoal reclamou, queria quatro pra cada, e mais cerveja, ele acabou concordando — nós botamos os sanduíches que sobraram nos bolsos da japona. enquanto isso, fomos contando uma série de mentiras. (Mais tarde eu li a revista e a reportagem saiu com todas as nossas mentirinhas.) No bar, outros três soldados que estavam sem dinheiro resolveram não pagar — além do mais o pessoal do bar estava explorando. Aí, quando o dono reclamou, eles mandaram botar tudo na conta do Exército. Depois, já na rua, um do nosso grupo bateu palmas na porta de uma casa e explicou a situação e a senhora que atendeu arranjou um prato de comida pra turma. Outro galho que a gente tinha que quebrar era ver se conseguia se comunicar com o pessoal de casa, pois todos os pais e mães tavam completamente sem notícias, preocupados. Fomos então até a telefônica, onde já havia uma fila enorme. Esperamos uma porção de tempo, pois tinha aquela questão de hierarquia, os oficiais falavam antes, e eram dezenas de oficiais pra falar, nunca chegava a nossa vez. Aí aconteceu um negócio engraçado: quando tava quase na minha vez de falar, chegou um major. Acho que do 1º R.I., e pediu uma ligação pra casa. Era um major enorme de gordo, devia pesar uns cem quilos mais ou menos, usando uma calça de instrução larguíssima. Ele foi entrando, se espremendo na cabine telefônica. Quando conseguiu a ligação, ouvimos a conversa: ele falava com a mãe — ele, um sujeito já de quase cinqüenta anos, começa com um “mamãe!” bem alto, pois a ligação estava ruim —, e todo mundo ali escutando “mamãe, quem tá falando aqui é o Dudu”, ele dizia, “a senhora não precisa mais se preocupar. Diz pro fulano que essa questão de greve vai acabar”; depois falou que já estava indo pro Rio e aí então, sempre gritando, perguntou pelos peixinhos do aquário, se tinham sido bem tratados, se tinham dado alpiste pros passarinhos... Tudo isso quase berrando: foi uma gargalhada geral na telefônica. O tal major saiu de lá na maior bronca. Depois cada um de nós conseguiu falar pra casa e sossegar o pessoal. A gente tava lá numa situação até que cômoda, detidos, calmamente instalados, e na volta pra nossa “área” resolvemos dar o golpe que tínhamos visto: entramos num bar, pedimos cerveja e mandamos botar na conta do Exército. Depois descobrimos um pomar de pitangueiras, com uma porção de soldados comendo as frutinhas. Outra diversão era mexer com os soldados de Minas: perguntar se eles tavam indo pro Rio pra comprar bonde, tentar irritar alguns deles pra ver se a gente resolvia no tapa o que não tinha sido resolvido no tiro lá em Paraibuna. Aí pelas seis horas da tarde, começaram a se movimentar em direção ao Rio de Janeiro. Nós seguíamos atrás, numa viatura que ficara à nossa disposição. No caminho, vi cenas de morrer de rir. Logo na saída de Serraria, em direção a Três Rios, passamos por um posto de gasolina, onde um soldado de uma unidade mineira qualquer tinha feito um ninho de metralhadora justamente em cima do posto. Quer dizer, tava ali pedindo a Deus pra que jogassem uma granada naquilo pra ver o que ia acontecer.



(Petrópolis, 1968)



Flávio Moreira da Costa

1964: Manobras de um Soldado

em Os Melhores Contos que a História Escreveu

Nova Fronteira. Rio de Janeiro.

sel. Org. e notas de Flávio Moreira da Costa

com a colaboração de Celina Portocarrero

2006.


30.6.09

 

UMA HISTÓRIA FANTASIOSA E CHEIA DE GRAÇA


É por ter figuras como o Elio Gaspari e o Millôr Fernandes, um historiador que tenta a sorte no humorismo e um humorista com pretensões a historiador, que o Brasil é o que é — uma perversidade continuada que se camufla com a fantasia e a maquiagem do palhaço.

 

BRASIL POR QUEM VIU


Não estão sujeitos a nenhum rei ou chefe e só têm alguma estima por aqueles que fizeram algum feito digno de homem forte. Por isso, freqüentemente, quando os julgamos ganhos, recalcitram, porque não há quem os obrigue pela força a obedecer. Os filhos obedecem aos pais conforme lhes parece. Cada um é rei em sua casa e vive como quer, por isso nenhum fruto, por menor que seja, se pode colher deles, se não se juntar a força do braço secular, que os dome e sujeite ao jugo da obediência. Vivendo sem leis nem autoridade, segue-se que não se podem conservar em paz e concórdia, de maneira que cada aldeia consta só de seis ou sete casas, nas quais, se não fosse o laço e a união do sangue, não podiam permanecer juntos, pois comer-se-iam uns aos outros, como vemos que acontece em muitos lugares onde eles não dominam essa paixão insaciável, nem sequer para se absterem de devorar abominavelmente os consangüíneos.


Juntam-se a isto os matrimônios contraídos com os consangüíneos até primos diretos, de maneira que, se queremos receber algum para o batismo, por causa do laço de sangue é dificílimo encontrar-lhe mulher com a qual possa casar. O que é para nós não pequeno impedimento, pois não podemos admitir ninguém à recepção do batismo conservando a concubina. Por isso, parece-nos sumamente necessário que se mitigue nestas partes todo o direito positivo, de maneira que possam contrair-se matrimônios em todos os graus, exceto de irmãos com irmãs. O mesmo é necessário fazer-se nas leis da Santa Madre Igreja, pois, se os quiséssemos obrigar a elas no presente, não há dúvida que não quereriam dispor-se a seguir a fé cristã.



José de Anchieta

em Brasil

A História Contada por quem Viu

Jorge Caldeira (org.)

Mameluco. São Paulo.

2008.


29.6.09

 

PANEM NOSTRUM


DO QUE OS PÁSSAROS MAIS GOSTAM

A segunda coisa que os pássaros
mais gostam é voar;
a terceira é do céu
e da terra onde moram
e mais precisamente
das árvores
que são suas casas;
a quarta é a presença
um do outro
nos dias e nas noites
assim os machos
com as fêmeas
e assim as fêmeas
com seus machos.
A quinta, as chuvas.
A sexta, o alimento.
A sétima, a lua.
A oitava, a procura
do pouso para dormir.
A nona, dormir.
A décima, acordar
de manhã.
E a primeira? Ah,
não se pode esquecer
do que mais gostam,
que é ser pássaro.


José Godoy Garcia

 

OS NOVOS INCONFIDENTES 139


IBRAIM SILVEIRA GOULART

1º SARGENTO — MINISTÉRIO DO

EXÉRCITO

Sanção: Reforma.

D.O.: 31-07-1964, p. 6818.


IEDA DOS REIS CHAVES

Sanção: Banimento.

D.O.: 15-06-1970, p. 4454.


IGNÁCIO GODOY DOS SANTOS

ESCRIVÃO DE POLÍCIA - RS

Sanção: Aposentadoria.

D.O.: 27-08-1969, p. 7278.


IGNÁCIO HANSEN BARBOSA

CONFERENTE DE CARGAS —

COMISSÃO DE MARINHA MERCANTE

Sanção: Aposentadoria.

D.O.: 07-10-1964, p. 9087.


IGNÁCIO JOSÉ DA GAMA

MEDEIROS

CONTROLADOR DE MOVIMENTO DE

TRENS — MINISTÉRIO DA VIAÇÃO E

OBRAS PÚBLICAS - MVOP

Sanção: Demissão.

D.O.: 09-10-1964, p. 9216.


IGUATEMY JORGE DE ANDRADE

AGENTE FISCAL DO IMPOSTO DE

RENDA

Sanção: Aposentadoria.

D.O.: 09-10-1964, p. 9205.


IJALME LEITE GOMES

MAGISTRADO - PB

Sanção: Aposentadoria.

D.O.: 27-02-1969, p. 1748.


ILCIO ARVELLOS LOPES

CAPITÃO-DE-CORVETA — MINISTÉRIO

DA MARINHA

Sanção: Reforma.

D.O.: 09-10-1964, p. 9199.


ILDEFONSO PEREIRA DA MOTA

FILHO

GUARDA-CIVIL - RS

Sanção: Aposentadoria.

D.O.: 27-08-1969, p. 7278.


ILDICO MARIA ERZSEBET

SERVIDOR PÚBLICO

Sanção: Aposentadoria.

D.O.: 28-04-1969, p. 3598.

Obs.: Republicação D.O.: 17-07-1969.


ILIDIO MONTEIRO DE GODOY

MAJOR — POLÍCIA MILITAR/GO

Sanção: Reforma.

D.O.: 15-09-1969, p. 7776.


ILSON SANTOS DE OLIVEIRA

MAJOR FARMACÊUTICO — MINISTÉRIO

DA AERONÁUTICA

Sanção: Reforma.

D.O.: 03-12-1970, p. 10302.


INÁCIO MARIANO VALADARES

FILHO

DEPUTADO ESTADUAL - PE

Sanção: Suspensão de direitos políticos e

cassação de mandato.

D.O.: 21-05-1970, p. 3791.


INALDO FARIA MENDES

ENGENHEIRO — MINISTÉRIO DA

VIAÇÃO E OBRAS PÚBLICAS - MVOP

Sanção: Aposentadoria.

D.O.: 09-10-1964, p. 9212.


INALDO IVO LIMA

DEPUTADO ESTADUAL - PE

Sanção: Suspensão de direitos políticos e

cassação de mandato.

D.O.: 30-04-1969, p. 3662.


INARD GUIMARÃES DE OLIVEIRA

MECÂNICO OPERADOR — MINISTÉRIO

DA MARINHA

Sanção: Aposentadoria.

D.O.: 16-09-1964, p. 8261.


28.6.09

 

SETE LAGOAS


 

PANEM NOSTRUM


CONGRESSO NO POLÍGONO DAS SECAS
(ritmo senador; sotaque sulista)
(fragmentos)

1.

— Cemitérios gerais
onde não só estão, os mortos.
— Eles são muito mais completos
do que todos os outros.
— Que não são só depósito
da vida que recebem, morta.
— Mas cemitérios que produzem
e nem mortos importam.
— Eles mesmos transformam
a matéria-prima que têm.
— Trabalham-na em todas as fases,
do campo aos armazéns.
— Cemitérios autárquicos,
se bastando em todas as fases.
— São eles mesmos que produzem
os defuntos que jazem.


João Cabral de Melo Neto

 

PERIPÉCIA DE GERARDO


Gran força de vento nos fez

amainar de romania as velas

tomei o sol em dois graus: demorava-me

a ilha de Fernão de Loronha ao suleste

e ao sudoeste demorava

o Cabo de Santo Agostinho o olhar de Santa Mônica

nesta paragem correm as águas aloesnoroeste

e em certos tempos correm mais

assim que nesta paragem a pilotagem é incerta:

por experiência verdadeira

para saberdes se estais de barlavento ou de julavento

da ilha de Fernão de Loronha

quando estais de barlavento vereis muitas aves

— as mais

rebiforcados e alcatrazes pretos

e de julavento vereis

mui poucas aves e as que virdes serão

alcatrazes brancos

e o mar é mui chão:


entre alcatrazes pretos

e alcatrazes brancos

por mar mui chão

por muito chão de mar

por mar e chão de chãs de terra de Alagoas

às vezes a um tiro de falcão do abismo

se arrisca a peripécia de Gerardo

e incerta é a pilotagem do perigo e Raul

e Efrain e Abdias e Godo e Napoleão

e os outros capitães, Francisco,

tapavam os olhos com a mão

sacudiam a cabeça e tremiam pelo navegante

cheios de misericórida e terror:

“Carlos — diziam — Carlos, o Temerário” —

e era Gerardo entrando, amor,

Gerardo em seu labirinto

e cada qual teria o seu: jogava

Juan y su laberinto

de papel

Agustín y su laberinto

de farsa

Godo y su laberinto

de estrelas

Abdias e seu labirinto

de bocetas

Francisco e seu labirinto

de anjos e Tomás

e seu labirinto de maçã

e vai morrer mordendo a fruta

do primeiro Adão

Tomás talvez o último Adão

mordendo a sua fruta e a fruta

de todos esses labirintos

tem o mesmo sabor o mesmo aroma:

assim, digamos, Gerardo

em seu labirinto navegava

farsa estrela papel bocetas anjos e maçãs.


Mas onde o sítio do desejo?



Gerardo Mello Mourão

em Peripécia de Gerardo.

Paz e Terra. Rio de Janeiro.

1972.


27.6.09

 

PANEM NOSTRUM


VELÓRIO DE UM COMENDADOR

§ Quem quer que o veja defunto,
havendo-o tratado em vida,
pensará: todo um alagado
coube aqui nesta bacia.

Resto de banho, água choca,
na banheira do salão,
sua preamar permanente
se empoça, em toda a acepção.

A brisa passa nas flores,
baronesas no morto-água,
mas nem de leve arrepia
a pele dela, estagnada.

Talvez porque qualquer água
fique mais densa, se morta,
mais pesada aos dedos finos
das brisas, ou a outras cócegas.

Não há dúvida, a água morta
se torna muito mais densa:
ao menos se vê boiando,
nesta, o metal da comenda.

Não se entende é por que a água
não arrebenta o caixão:
mais densa, pesará mais,
terá mais forte pressão.

Como seja: agora um dique
detém, de simples madeira,
uma água morta que, viva,
arrebentava represas.

E uma banheira contém,
exposto a que alguém derrame,
todo o mar de água que ele era,
sem confins, mar de água mangue.


§ Todos que o vejam assim,
coberto de tantas flores,
pensarão que num canteiro,
não num caixão, está hoje.

O tamanho e as proporções
fazem o engano mais perfeito;
pois é idêntico o abaulado
de leirão e de canteiro.

Nem por estar numa sala,
está essa imagem desfeita:
se em salas não há jardins,
há contudo jardineiras.

E só não se enganaria
nem cairia na imagem,
alguém que entendesse muito
de jardins e reparasse:

que a terra do tal canteiro
deve ser da mais salobre,
dado o pouco tempo que abre
o guarda-sol dessas flores

com que os amigos que tinha
o quiseram ajardinar,
e que murcham, se bem cheguem
abertas de par em par.

Na verdade, as flores todas
fecham rápido suas tendas.
A não ser a flor eterna,
por ser metal, da comenda,

que, de metal, pode ser
que dure e nunca enferruje.
Ou um pouco mais: pois parece
que já a ataca o chão palustre.


João Cabral de Melo Neto

 

KURT VONNEGUT


Sou germano-americano, dos puros, da época em que os germano-americanos ainda eram endógamos, casando-se uns com os outros. Quando pedi à anglo-americana Jane Marie Cox que se casasse comigo em 1945, um de seus tios lhe perguntou se ela realmente “queria se misturar com todos aqueles alemães”. Sim, e ainda hoje em dia existe uma espécie de fenda geológica de San Andreas separando os germano-americanos dos anglo-americanos, embora cada vez mais tênue.


Vocês poderiam achar que isso aconteceu por causa da Primeira Guerra Mundial, na qual ingleses e americanos lutaram contra a Alemanha, quando a fenda se abriu, larga e funda como a boca do inferno, embora nenhum germano-americano tivesse praticado um ato de traição. Mas a fenda apareceu da primeira vez por volta da Guerra Civil, quando todos os meus ancestrais imigrantes chegaram por aqui e se instalaram em Indianápolis. Um ancestral chegou a perder uma perna numa batalha e voltou à Alemanha, mas o resto ficou e prosperou de maneira incrível.


Chegaram numa época em que a classe dominante anglo-americana, como nossos oligarcas corporativos poliglotas de hoje, queria os operários mais baratos e dóceis que pudesse encontrar em qualquer parte deste vasto mundo. As especificações para estas pessoas, então como agora, eram aquelas enumeradas por Emma Lazarus em 1883: “cansadas”, “pobres”, “amontoadas”, “desgraçadas”, “sem teto” e “à mercê das tempestades”. E pessoas assim, na época, tinham de ser importadas. Os empregos não podiam, como hoje, ser mandados até onde elas eram tão infelizes. Sim, e elas vinham para cá do jeito que podiam, às dezenas de milhares.


Mas no meio deste maremoto de miséria estava o que, retrospectivamente, pareceria aos anglo-americanos um cavalo de Tróia, recheado de homens de negócios alemães de classe média, educados, bem alimentados, e suas famílias, com dinheiro para investir. Um ancestral do lado de minha mãe tornou-se dono de cervejaria em Indianápolis. Mas ele não construiu uma cervejaria. Ele comprou uma! Que tal isso, como pioneirismo? Nem estas pessoas precisaram desempenhar qualquer papel nos genocídios e na limpeza étnica que fizeram deste, para eles, um continente virgem.


E estas pessoas livres de culpa, falando inglês no trabalho, mas alemão em casa, não só construíram negócios bem-sucedidos, de um modo mais impressionante em Indianápolis, Milwaukee, Chicago e Cincinnati, mas seus próprios bancos e salas de concerto, clubes sociais e ginásios, restaurantes, mansões e chalés de verão, deixando os anglos a se perguntar, com boa razão, devo admitir: “Afinal, a quem pertence esta porra de país?”



Kurt Vonnegut Jr.

em Um Homem sem Pátria

Record. Rio de Janeiro. 2006.


26.6.09

 

PANEM NOSTRUM


ANATOMIA DO MONÓLOGO

ser ou não ser?

er ou não er?

r ou não r?

ou nâo?

onã?


José Paulo Paes
Poesia Completa
Companhia das Letras.
São Paulo. 2008.

 

VOZES DO GOLPE


O famoso “dispositivo militar” do general Assis Brasil, chefe da Casa Militar, espécie de “Linha Maginot” de Jango, era a força mítica irresistível com que o governo contava. Dias antes, o presidente reunira-se com oficiais do seu gabinete num sítio perto de Brasília. Na mesa onde em seguida seria servido o churrasco, Assis Brasil abriu vários mapas e fez uma exposição sobre o poderio das forças à sua disposição. Para encerrar, atiçou: “Manda brasa, presidente!”. Tudo isso seria posto à prova naquela última terça-feira de março.


“O dia 31 foi uma loucura”, recorda Iracema Kemp, ex-aluna, amiga e, com vinte e poucos anos em 64, secretária particular de Darcy. “Havia aquela série de notícias contraditórias. Darcy pressionando para obter informações e o Gabinete Militar, ou porque não as tinha ou porque sonegava, repetindo que a situação estava sob controle.”


De tarde, depois de muitas tentativas das duas, a mãe de Iracema, que morava num apartamento na rua Senador Vergueiro, no Flamengo, conseguiu completar a ligação: “Iracema, o Rio de Janeiro está em festa, com passeata e foguetório. Carlos Lacerda está anunciando que Jango caiu”. “E eu, ingenuamente e cheia de verdade: ‘Mamãe, isso é conversa, é guerra de nervos, não dê ouvidos. Jango está firme’. Minha mãe com a razão e eu, ingênua, desmentindo.”


Ítalo Campofiorito, um arquiteto da equipe de Oscar Niemeyer levado por Darcy para dirigir a Faculdade de Arquitetura, pôde viver o que Iracema ouviu por telefone. Ele só estava no Rio porque sua mãe fora operada no Hospital dos Servidores do Estado, justamente o mesmo onde o ministro da Guerra, Jair Dantas Ribeiro, se submetera a uma cirurgia de próstata muito providencial para o golpe. Por causa do impedimento, ele fora substituído pelo general Moraes Âncora, seu amigo, que Darcy descrevia assim: “Era um general magro, asmático, que tossia sem parar. Levava a tiracolo não uma arma, mas uma espécie de bombinha de flit com que, de vez em quando, aspergia algum remédio na garganta”.


O chefe da Casa Civil queria trocar o ministro interino e o titular pelo marechal Henrique Lott, que seria, segundo ele, a única maneira de salvar o governo. Mas Jango recusou a proposta: “Como é que eu vou demitir o ministro Jair Dantas Ribeiro, que está de barriga aberta numa sala de operações?”



Zuenir Ventura

em Um Voluntário da Pátria

vozes do golpe

Companhia das Letras. São Paulo.

2004.


25.6.09

 

PANEM NOSTRUM


OS LANCEIROS

para augusto haroldo décio


em malarmado
lance o dado
caiu no poço
do espaço em branco

azar: que ponto
marcava? acaso
um alto ponto?
um desaponto?

eis logo em campo
dois espeleólogos
vão ver e desce
o tertio três

demoram voltam
participando:
A THING OF BEAUTY
IS A JOYCE FOREVER


José Paulo Paes
Poesia Completa
Companhia das Letras.
São Paulo. 2008.

 

BRASIL POR QUEM VIU


Devo dizer com relação ao casamento dos nossos americanos que eles observam tão somente três graus de parentesco; ninguém toma por esposa a própria mãe, a irmã ou filha, mas o tio casa com a sobrinha e em todos os demais graus de parentesco não existe impedimento. A cerimônia matrimonial é a seguinte: quem quer ter mulher, seja viúva ou donzela, indaga de sua vontade e em seguida dirige-se ao pai, ou, na falta deste, ao parente mais próximo, para pedi-la em casamento. Se lhe respondem afirmativamente, leva consigo a noiva como legítima mulher sem que se lavre nenhum contrato. Se, porem, recebe um não, o pretendente desterra-se sem ficar humilhado.


Note-se que, sendo a poligamia permitida, podem os homens ter quantas mulheres lhes apraz e, quanto maior o número de esposas, mais valentes são considerados. Isso transforma portanto o vício em virtude. Vi alguns com oito mulheres, cuja enumeração era feita com a intenção de homenageá-los. O que me parece admirável é que havendo sempre uma, entre elas, mais amada do marido, não se revoltem as outras e nem sequer demonstrem ciúmes. Vivem em paz, ocupadas no arranjo das casas, em tecer redes, limpar a horta e plantar suas raízes. E deixo aos meus leitores considerarem se as européias, ainda que não fosse proibido por Deus ter mais de uma mulher, se acomodariam com esse regime matrimonial. Melhor seria condenar um homem às galés do que metê-lo no meio de tanta intriga e ciumeira. Acontecer-lhe-ia sem dúvida o que ocorreu a Jacó por ter tomado por esposas a Lia e Raquel, não obstante serem irmãs. Como poderiam as nossas damas viver unidas se o simples preceito, imposto por Deus à mulher, de ajudar e socorrer ao marido, já as torna o demônio familiar das próprias casas? Minha censura, entretanto, não visa àquelas que fazem o contrário e obedecem como de direito aos seus maridos. Embora não façam mais do que cumprir o seu dever, eu as julgo tão dignas de louvor quanto as outras merecedoras de vitupérios.


Voltando ao casamento dos nossos americanos, devo dizer que o adultério feminino lhes causa tal horror que o homem enganado pode repudiar a mulher faltosa, despedi-la ignominiosamente ou mesmo matá-la, regendo-se pela lei natural. É certo que antes de casá-las os pais não hesitam em prostituí-las a qualquer varão. Antes de nossa chegada ao Brasil, os intérpretes normandos abusavam das raparigas em muitas aldeias, mas nem por isso elas ficavam difamadas e quando se casavam procuravam não mais claudicar, de medo de serem mortas ou repudiadas, como já disse. Direi mais que, apesar do clima da região em que habitam e não obstante serem orientais, nem os mancebos nem as donzelas núbeis da terra se entregam à devassidão como fora de supor. Quisera Deus que o mesmo acontecesse por aqui. Todavia, para não apresentá-los melhores do que são, direi que quando brigam se insultam de “tivira”, o que quer dizer sodomita. Isso me leva a crer, embora não o possa afirmar, que entre eles exista esse abominável vício.


Mesmo grávida a mulher não deixa de cuidar de seu trabalho cotidiano e apenas evita carregar fardos pesados. Na verdade, as mulheres dos nossos tupinambás trabalham muito mais do que os homens, pois estes, à exceção de roçar o mato para as suas culturas, o que fazem sempre de manhã exclusivamente, nada mais lhes importa a não ser a guerra, a caça, a pesca e a fabricação de tacapes, arcos, flechas e adornos de penas para enfeites.



Jean de Léry

em Brasil

A História Contada por quem Viu

Jorge Caldeira (org.)

Mameluco. São Paulo.

2008.


24.6.09

 

PANEM NOSTRUM


Destes penhascos fez a natureza
O berço em que nasci: oh! quem cuidara
Que entre penhas tão duras se criara
Uma alma terna, um peito sem dureza!

Amor, que vence os tigres, por empresa
Tomou logo render-me; ele declara
Contra o meu coração guerra tão rara,
Que não me foi bastante a fortaleza.

Por mais que eu mesmo conhecesse o dano,
A que dava ocasião minha brandura,
Nunca pude fugir ao cego engano:

Vós, que ostentais a condição mais dura,
Temei, penhas, temei, que Amor tirano,
Onde há mais resistência, mais se apura.


Cláudio Manuel da Costa

 

OS NOVOS INCONFIDENTES 138


HUMBERTO EL JAICK

ADVOGADO E PROFESSOR

Sanção: Suspensão de direitos políticos e

cassação de mandato.

D.O.: 14-10-1966, p. 11877.


HUMBERTO FERREIRA DA SILVA

CAIXA — BANCO DO BRASIL

Sanção: Aposentadoria.

D.O.: 09-10-1964, p. 9205.


HUMBERTO FREIRE DE ANDRADE

CORONEL DA ARMA DE INFANTARIA —

MINISTÉRIO DO EXÉRCITO

Sanção: Transferência para a Reserva.

D.O.: 11-04-1964, p. 3259.

Sanção: Suspensão de direitos políticos.

D.O.: 14-04-1964, p. 3313.

Sanção: Reforma.

D.O.: 28-09-1964, p. 8680.


HUMBERTO LESSA DE

VASCONCELLOS FILHO

MAJOR INTENDENTE — FORÇA AÉREA

BRASILEIRA - FAB

Sanção: Demissão.

D.O.: 29-01-1970, p. 709.


HUMBERTO LUCENA LOPES

Sanção: Suspensão de direitos políticos.

D.O.: 23-05-1966, p. 5447.


HUMBERTO MELO

MAGISTRADO DA JUSTIÇA — COMARCA

DE MONTEIRO/PB

Sanção: Aposentadoria.

D.O.: 27-02-1969, p. 1748.


HUMBERTO MENEZES PINHEIRO

Sanção: Suspensão de direitos políticos.

D.O.: 10-04-1964, p. 3217.


HUMBERTO MOLINARO

TENENTE-CORONEL DA ARMA DE

INFANTARIA — MINISTÉRIO DO

EXÉRCITO

Sanção: Transferência para a Reserva.

D.O.: 11-04-1964, p. 3259.

Sanção: Suspensão de direitos políticos.

D.O.: 14-04-1964, p. 3313.

Sanção: Demissão.

D.O.: 28-09-1964, p. 8678.


HUMBERTO MONTEIRO TEIXEIRA

MARINHO

AGENTE FISCAL DO IMPOSTO DE

RENDA

Sanção: Demissão.

D.O.: 01-10-1964, p. 8838.


HUMBERTO PAIVA XAVIER

2º SARGENTO — MINISTÉRIO DA

MARINHA

Sanção: Demissão.

D.O.: 28-09-1964, p. 8677.


HUMBERTO WALTER BARROSO DE

SOUZA

GUARDA MARÍTIMO E AÉREO —

POLÍCIA MARÍTIMA E AÉREA/SP

Sanção: Aposentadoria.

D.O.: 14-09-1970, p. 7968.


IARA GUIMARÃES BRANT PEREIRA

CONTADORA

Sanção: Aposentadoria.

D.O.: 30-04-1969, p. 3667.


IB TEIXEIRA

Sanção: Suspensão de direitos políticos.

D.O.: 14-04-1964, p. 3313.


IBIAPINO MENDES TENORIO

2º SARGENTO QAT-SP

Sanção: Reforma.

D.O.: 18-11-1970, p. 9796.


22.6.09

 

CORDISBURGO


 

GRACILIANO


Além disso Padre João Inácio habituara-se a cuidar de variolosos, viventes que infundiam pavor a toda a vila. Se aparecia notícia deles, as portas se fechavam, o comércio enfraquecia, nas pontas das ruas queimavam excremento de boi e creolina em cacos de telha. Uma noite levavam os infelizes, enrolados, para os barracões de palha feitos nas brenhas, onde a carne doente apodrecia quase ao abandono, sobre folhas de bananeiras. Alguns enfermeiros imunizados furavam-lhes as pústulas com espinhos de mandacaru, lavavam-nas com aguardente e cânfora. Havia grande mortandade, e as marcas dos sobreviventes eram horrorosas. Os curandeiros dessa praga inspiravam tanto receio como as vítimas dela. Cercava-os uma faixa de isolamento. Admiração e repugnância.

Pois numa epidemia das mais violentas Padre João Inácio e Capitão Badega, isentos de preservativos, se haviam estabelecido nos barracões. Gente medrosa sucumbira. Os dois tinham saído ilesos e, em conseqüência, virado comendadores. Distinção balda. O Vigário nunca chegou a Cônego. E Capitão Badega permaneceu capitão, sumido na fazenda, insensível a honrarias, lendo César Cantù, governando vários filhos naturais e um lote de cabrochas.

Depois da façanha, Padre João Inácio arranjara tubos de linfa e começara a furar os braços da humanidade na vila e circunvizinhança. Os sertanejos não queriam meter a desgraça no corpo, adoecer por gosto. Se um médico tentasse a inoculação, haveria distúrbios. Mas aquela autoridade franzina usava despotismo, não descia a explicações. Insultava a canalha, raça de cachorro com porco. Mandava porque tinha poderes: era Albuquerque e sacerdote. E os paroquianos se deixavam contaminar, covardes, lamentando que S. Revma. não se dedicasse inteiramente às cerimônias do culto. Não se dedicava. Dirigia um partido político — e o culto lhe merecia fraca atenção.

Fora condiscípulo do Padre Cícero. Falava no taumaturgo, que principiava a notabilizar-se: apagado, sofrível, por não ser Albuquerque.

Padre João Inácio era pobre e tinha credores, que dominava. Conseguia, cheio de necessidades, exibir independência, injuriar, gritar.

Fomos vacinados na loja, graúdos e miúdos. Na surpresa, ignorando a tendência má do homem, não senti dor nem medo. Mas as feridas que vieram, resguardos, febre, quarenta dias sem toicinho, me pareceram obra do reverendo. Comentei o desastre com minhas irmãs. A pequena, um animalzinho, não atribuía às picadas o longo padecimento e a dieta rigorosa. A mais velha, porém, que já discernia motivos e me auxiliava no furto de doces, concordou comigo: realmente a criatura malvada nos dava achaques e nos proibia o toicinho. Suspeitamos que a infelicidade se renovaria, e a suspeita, confirmada no alpendre e na cozinha, se cometíamos alguma falta, mudou-se em convicção.


Graciliano Ramos
em Infância
Record. Rio de Janeiro.
22ª edição. 1986.

 

PANEM NOSTRUM


Casamento


Há mulheres que dizem:

Meu marido, se quiser pescar, pesque,

mas que limpe os peixes.

Eu não. A qualquer hora da noite me levanto,

ajudo a escamar, abrir, retalhar e salgar.

É tão bom, só a gente sozinhos na cozinha,

de vez em quando os cotovelos se esbarram,

ele fala coisas como ‘este foi difícil’

‘prateou no ar dando rabanadas’

e faz o gesto com a mão.

O silêncio de quando nos vimos a primeira vez

atravessa a cozinha como um rio profundo.

Por fim, os peixes na travessa,

vamos dormir.

Coisas prateadas espocam:

somos noivo e noiva.



Adélia Prado


 

TRIBUNA LIVRE


A singular predisposição do português para a colonização híbrida e escravocrata dos trópicos, explica-a em grande parte o seu passado étnico, ou antes, cultural, de povo indefinido entre a Europa e a África. Nem intransigentemente de uma nem de outra, mas das duas. A influência africana fervendo sob a européia e dando um acre requeime à vida sexual, à alimentação, à religião; o sangue mouro ou negro correndo por uma grande população brancarana quando não predominando em regiões ainda hoje de gente escura; a ar da África, um ar quente, oleoso, amolecendo nas instituições e nas formas de cultura as durezas germânicas; corrompendo a rigidez moral e doutrinária da Igreja medieval; tirando os ossos ao Cristianismo, ao feudalismo, à arquitetura gótica, à disciplina canônica, ao direito visigótico, ao latim, ao próprio caráter do povo. A Europa reinando, mas sem governar; governando antes a África.

Corrigindo até certo ponto tão grande influência do clima amolecedor, atuaram sobre o caráter português, entesando-o, as condições sempre tensas e vibráteis de contato humano entre a Europa e a África; o constante estado de guerra (que entretanto não excluiu nunca a miscigenação nem a atração sexual entre as duas raças, muito menos o intercurso entre as duas culturas); a atividade guerreira, que se compensava do intenso esforço militar relaxando-se, após a vitória, sobre o trabalho agrícola e industrial dos cativos de guerra, sobre a escravidão ou a semi-escravidão dos vencidos. Hegemonias e subserviências essas que não se perpetuavam; revezavam-se tal como no incidente dos sinos de Santiago de Compostela. Os quais teriam sido mandados levar pelos mouros à mesquita de Córdoba às costas dos cristãos e por estes, séculos mais tarde, mandados reconduzir à Galiza, às costas dos mouros.

Quanto ao fundo considerado autóctone de população tão movediça, uma persistente massa de dólicos morenos, cuja cor a África árabe e mesmo negra, alagando de gente sua largos trechos da Península, mais de uma vez veio avivar de pardo ou de preto. Era como se os sentisse intimamente seus por afinidades remotas apenas empalidecidas; e não os quisesse desvanecidos sob as camadas sobrepostas de nórdicos nem transmudados pela sucessão de culturas europeizantes. Toda a invasão de celtas, germanos, romanos, normandos — o anglo-escandinavo, o H. Europaeus L., o feudalismo, o Cristianismo, o Direito Romano, a monogamia. Que tudo isso sofreu restrição ou refração num Portugal influenciado pela África, condicionado pelo clima africano, solapado pela mística sensual do Islamismo.

“Em vão se procuraria um tipo físico unificado”, notava há anos em Portugal o conde Hermann de Keyserling. O que ele observou foram elementos os mais diversos e mais opostos, “figuras com ar escandinavo e negróides”, vivendo no que lhe pareceu “união profunda”. “A raça não tem aqui papel decisivo”, concluiu o arguto observador. E já da sociedade moçárabe escrevera Alexandre Herculano: “População indecisa no meio dos dois bandos contendores [nazarenos e maometanos], meia cristã, meia sarracena, e que em ambos contava parentes, amigos, simpatias de crenças ou de costumes.”

Esse retrato do Portugal histórico, traçado por Herculano, talvez possa estender-se ao pré e pró-histórico; o qual nos vai sendo revelado pela Arqueologia e pela Antropologia tão dúbio e indeciso quanto o histórico. Antes dos árabes e berberes: capsienses, libifenícios, elementos africanos mais remotos. O H. Taganus. Ondas semitas e negras, ou negróides, batendo-se com as do Norte.


Gilberto Freyre
em Casa-Grande & Senzala
Intérpretes do Brasil vol. II.
Nova Aguilar. Rio de Janeiro.
2002.

 

VOZES DO GOLPE


Minha irmã, dois anos mais velha, era a boazinha; arrumava a cama, ia à feira fazer compras, ajudava nas coisas da casa. Excelente aluna, não freqüentava a biblioteca, mas era a queridinha dos professores, tirava notas excelentes. Uma santa, quase. Não santa como tu, naturalmente, mas bem santa, de qualquer modo. Minissanta, pelo menos.


Eu invejava minha irmã. Tinha raiva dela. E por isso sofria, por causa da raiva que sentia dela. Eu era ruim. Não parecia ruim, mas era ruim. Minha maldade ficava escondida, mas era, posso te garantir, muita maldade. Quando me olhava no espelho (e detestava me olhar no espelho) não via um rosto puro e sereno como o teu. O que eu via era uma cara rígida, dura de ódio, um olhar desvairado — eu já era louca, o espelho sabia disso, o espelho me mostrava coisas que eu não queria ver, uma vez quebrei o do meu quarto a marteladas (a surra que levei de minha mãe podes imaginar). Desgostava-me, minha expressão: eu queria ser boa, mas não conseguia; minha cara não deixava. A cara me comandava, a cara e o espelho conspiravam para acabar comigo. Ah, sim: eu usava óculos. Ainda por cima usava óculos. Como meu pai, eu tinha problemas de visão. Ler, às vezes, era coisa muito difícil. Mas, apesar da contrariedade de minha mãe, e da dor de cabeça que às vezes me assaltava, não abandonava a leitura. Quando mamãe me proibiu de ir à biblioteca, dei um jeito de continuar lendo: pedia livros emprestados a um senhor que morava perto de nossa casa e que era um grande leitor. O velho me emprestava, claro, apesar de me olhar de um jeito meio safado, coisa que eu até tomava como elogio, mas que não importava muito: o que eu queria era ler. Mas que um prazer, era uma esperança, a única esperança. Tinha certeza de que algum dia, em algum livro, encontraria a resposta definitiva para minhas dúvidas, a fórmula mágica da felicidade. Eu queria ser feliz. Os romances falavam nisso, em felicidade, mas o que era mesmo felicidade? Eu não sabia, claro, porque não era feliz, mas podia imaginar. Felicidade incluiria uma casa melhor do que aquele tugúrio em que morávamos, uma mãe menos rancorosa, um pai menos ausente, uma irmã menos inteligente, menos virtuosa. Melhor ainda, uma irmã morta, falecida muito cedo, de alguma rápida enfermidade. Uma irmã cujo único resíduo fosse uma foto desbotada numa moldura barata com um vidro meio sujo. Uma irmã para sempre imobilizada, como tu. Para essa irmã eu poderia olhar sem problemas. Poderia até falar com ela, contar-lhe as histórias que lia, e até anedotas, anedotas de sacanagem, aquela da prostituta na carroça e outras. Uma irmã em foto seria ideal. Eu me sentiria melhor. Poderia até me mirar no espelho. E me miraria rindo, um riso meio tolo, mas riso, de qualquer maneira; uma face risonha sempre é melhor do que uma face sombria. Pelo menos é o que indica a lógica. Eu já não me veria com os cantos da boca caídos, a marca registrada do meu ressentimento e da minha frustração. Não, aos poucos os cantos da boca se elevariam em direção ao céu, lá onde moras. Essa trajetória marcaria o caminho da minha felicidade, um caminho até mensurável, em graus ou em milímetros. Conforme garantia um dos livros, em sua vistosa encadernação, apenas alguns milímetros nos separam da felicidade.



Moacyr Scliar

Mãe Judia, 1964

vozes do golpe

Companhia das Letras. São Paulo.

2004.


21.6.09

 

PANEM NOSTRUM


Para o Zé

Eu te amo, homem, hoje como
toda vida quis e não sabia,
eu que já amava de extremoso amor
o peixe, a mala velha, o papel de seda e os riscos
de bordado, onde tem
o desenho cômico de um peixe — os
lábios carnudos como os de uma negra.
Divago, quando o que quero é só dizer
te amo. Teço as curvas, as mistas
e as quebradas, industriosa como abelha,
alegrinha como florinha amarela, desejando
as finuras, violoncelo, violino, menestrel
e fazendo o que sei, o ouvido no teu peito
para escutar o que bate. Eu te amo, homem, amo
o teu coração, o que é, a carne de que é feito,
amo sua matéria, fauna e flora,
seu poder de perecer, as aparas de tuas unhas
perdidas nas casas que habitamos, os fios
de tua barba. Esmero. Pego tua mão, me afasto, viajo
pra ter saudade, me calo, falo em latim pra requintar meu gosto:
“Dize-me, ó amado da minha alma, onde apascentas
o teu gado, onde repousas ao meio-dia para que eu não
ande vagueando atrás dos rebanhos de teus companheiros”.
Aprendo. Te aprendo, homem. O que a memória ama
fica eterno. Te amo com a memória imperecível.
Te alinho junto das coisas que falam
uma coisa só: Deus é amor. Você me espicaça como
o desenho do peixe da guarnição de cozinha, você me guarnece,
tira de mim o ar desnudo, me faz bonita
de olhar-me, me dá uma tarefa, me emprega,
me dá um filho, comida, enche minhas mãos.
Eu te amo, homem, exatamente como amo o que
acontece quando escuto oboé. Meu coração vai desdobrando
os panos, se alargando aquecido, dando
a volta ao mundo, estalando os dedos pra pessoa e bicho.
Amo até a barata, quando descubro que assim te amo,
o que não queria dizer amo também, o piolho. Assim,
te amo do modo mais natural, vero-romântico,
homem meu, particular homem universal.
Tudo que não é mulher está em ti, maravilha.
Como grande senhora vou te amar, os alvos linhos,
a luz na cabeceira, o abajur de prata;
como criada ama, vou te amar, o delicioso amor:
com água tépida, toalha seca e sabonete cheiroso,
me abaixo e lavo teus pés, o dorso e a planta deles
eu beijo.


Adélia Prado

 

BRASIL POR QUEM VIU


Não obstante morarem muitas mulheres sob o mesmo teto, com um só marido, uma é sempre mais querida; por isso, governa as outras como uma senhora às suas servas. E o que é mais admirável: vivem todas em boa paz, sem ciúmes nem brigas, obedientes todas ao marido, preocupadas com servi-lo dedicadamente nos trabalhos do lar, sem disputas nem dissensões de qualquer espécie. Espantou-me, e espanta-me ainda quando dela me recordo, essa união observável nas famílias dos selvagens. Em geral, vivem sossegados o marido e suas mulheres. Demonstram grande amizade apesar de seu paganismo, a ponto de jamais se ouvir discussões nem recriminações ou do marido ou das mulheres.


Bela lição em verdade para muitas famílias católicas, as quais, tendo recebido a luz da fé, devem viver santamente em seus lares, sujeitando-se a mulher, em tudo, a seu marido e senhor, temendo-o e respeitando-o como chefe; por seu lado, deve o marido amar sua mulher como Jesus Cristo amou sua Igreja, sofrendo por ela a morte na cruz. No entanto, apesar de tudo isso, não vivem essas famílias em paz, nem passam um só dia sem disputas e dissensões de toda espécie; transformam o lar em um inferno na terra, em vez de fazerem dele um pequeno paraíso particularmente agradável a Deus.


Quanto aos filhos, logo ao nascerem os pais os friccionam com óleos e tinturas, como já foi dito, e deitam-nos em redezinhas de algodão, sem enfaixá-los nem cobri-los. Creio que por isso mesmo são menos sujeitos do que os nossos a se tornar corcundas ou contrafeitos; pois entre nós, desde o nascimento, são as crianças enfiadas em berços e metidas dentro de vestimentas tão apertadas que violentam a natureza, a ponto de somente com dificuldade poderem crescer. Daí a grande quantidade de indivíduos tortos, coxos e corcundas. O mesmo não ocorre entre os índios, que deixam a natureza expandir-se em liberdade. E agrada ver as crianças, de quatro, cinco e seis anos. Alem de bem feitas de corpo e bem proporcionadas, não são tão pueris como muitas crianças da Europa. Ao contrário, são dotadas de certa seriedade e de modéstia natural muito agradáveis. São tão numerosas, principalmente até a idade de oito anos, que, sem as guerras, seria o país muito povoado.


Quanto às mães, é impossível dizer a que ponto amam seus filhos apaixonadamente. Jamais os abandonam e trazem-nos sempre em sua companhia. Descansam, em geral, apenas dois ou três dias depois do parto. Depois disso, carregam o menino suspenso ao pescoço por um pedaço de pano de algodão, e vão para a roça trabalhar ou ocupar-se de sua casa sem maiores resguardos. Muitas vezes, além da criança que carregam assim dependurada, levam uma outra pela mão, e mais duas ou três maiorezinhas a acompanham. Como querem muito bem a seus filhos, cuidam extremamente de sua limpeza, além de amamentá-los com uma espécie de papa.


Não fazem como as mães de nosso país, que mal nascem os filhos os entregam às amas e mesmo os mandam para fora, a fim de não se aborrecerem com eles. Nisso não as imitariam as selvagens por nada no mundo, pois querem que seus filhos sejam alimentados com seu próprio leite.


Também creio que se deva atribuir ao grande amor que os pais têm a seus filhos o fato de jamais lhes dizerem palavras ofensivas. Dão-lhes, ao contrário, ampla liberdade para fazerem o que lhes apetece e nunca os repreendem. Por isso mesmo, espanta que as crianças, em geral, nada façam que possa descontentar os pais, mas se esforcem, ao contrário, por agir de modo a agradá-los.


Não sei se devo explicar esse respeito das crianças selvagens pelo amor que têm a seus pais; possivelmente sua natureza não se encontre tão viciada, nem a sua mocidade tão corrompida, quanto entre os cristãos, nos quais os vícios, as maldades e os apetites desordenados reinam a ponto de torná-los, desde a infância, verdadeiros flagelos para seus pais, que tanto trabalho tiveram em criá-los e educá-los amorosamente.



Claude d’Abbeville

em Brasil

A História Contada por quem Viu

Jorge Caldeira (org.)

Mameluco. São Paulo.

2008.


19.6.09

 

PANEM NOSTRUM


Bilhete em Papel Rosa

A meu amado secreto, Castro Alves.

Quantas loucuras fiz por teu amor, Antônio.
Vê estas olheiras dramáticas,
este poema roubado:
“o cinamomo floresce
em frente do teu postigo.
Cada flor murcha que desce,
morro de sonhar contigo”.
Ó bardo, eu estou tão fraca
e teu cabelo é tão negro,
eu vivo tão perturbada,
pensando com tanta força
meu pensamento de amor,
que já nem sinto mais fome,
o sono fugiu de mim. Me dão mingaus,
caldos quentes, me dão prudentes conselhos
e eu quero é a ponta sedosa do teu bigode atrevido,
a tua boca de brasa, Antônio, as nossas vidas ligadas.
Antônio lindo, meu bem,
ó meu amor adorado,
Antônio, Antônio.
Para sempre tua.


Adélia Prado

 

OS NOVOS INCONFIDENTES 137


HUGO GOUTHIER DE OLIVEIRA

GONDIM

DIPLOMATA

Sanção: Suspensão de direitos políticos.

D.O.: 13-06-1964, p. 5050.


HUGO HARTZ

CAPITÃO — MINISTÉRIO DA

AERONÁUTICA

Sanção: Transferência para a Reserva.

D.O.: 11-04-1964, p. 3259.

Sanção: Reforma.

D.O.: 25-09-1964, p. 8637.


HUGO NOBRE CALADO

3º SARGENTO

Sanção: Demissão.

D.O.: 03-12-1970, p. 10300.


HUGO RÉGIS DOS REIS

ENGENHEIRO

Sanção: Suspensão de direitos políticos.

D.O.: 10-04-1964, p. 3217.


HUGO WEISS

SERVIDOR PÚBLICO

Sanção: Aposentadoria.

D.O.: 28-04-1969, p. 3598.

Obs.: Republicação D.O.: 17-07-1969.


HUGOLINO DE ANDRADE

UFLACHER

PROFESSOR CATEDRÁTICO —

FACULDADE DE DIREITO -

PELOTAS/RS

Sanção: Aposentadoria.

D.O.: 25-09-1964, p. 8634.


HUGOLINO PINHEIRO DOS SANTOS

INATIVO E ASSISTENTE DE

ENFERMAGEM - AP

Sanção: Cassação de aposentadoria.

D.O.: 07-10-1964, p. 9092.


HUMBERTO ANNIBAL DE MELLO

SANTOS

CAPITÃO-DE-FRAGATA — MINISTÉRIO

DA MARINHA

Sanção: Reforma.

D.O.: 25-09-1964, p. 8613.


HUMBERTO ARCHIBALD

CAMPBELL

ESCRITURÁRIO — BANCO DO BRASIL

Sanção: Demissão.

D.O.: 07-10-1964, p. 9086.


HUMBERTO BRASILEIRO BAHIA

MÉDICO — INSTITUTO DE

APOSENTADORIA E PENSÕES DOS

FERROVIÁRIOS E EMPREGADOS EM

SERVIÇOS PÚBLICOS - IAPFESP /

SERVIÇO DE ASSISTÊNCIA MÉDICA

DOMICILIAR E DE URGÊNCIA -

SAMDU

Sanção: Demissão.

D.O.: 09-10-1964, p. 9220.

CONSELHEIRO — COMPANHIA

HIDRELÉTRICA DO VALE DO

PARAÍBA - CHEVAP

Sanção: Demissão.

D.O.: 09-10-1964, p. 9225.


HUMBERTO CLEMENTINO DA

SILVA

BARMAN - COMPANHIA NACIONAL DE

NAVEGAÇÃO COSTEIRA - CNNC /

MINISTÉRIO DA VIAÇÃO E OBRAS

PÚBLICAS - MVOP

Sanção: Demissão.

D.O.: 09-10-1964, p. 9209.


HUMBERTO DE MATTOS GRIMALDI

2º SARGENTO — MINISTÉRIO DO

EXÉRCITO

Sanção: Reforma.

D.O.: 25-08-1969, p. 7190.


HUMBERTO DE MELO BASTOS

Sanção: Suspensão de direitos políticos.

D.O.: 10-04-1964, p. 3217.


17.6.09

 

SÃO PAULO


 

PANEM NOSTRUM


Os Lugares Comuns


Quando o homem que ia casar comigo

chegou a primeira vez na minha casa,

eu estava saindo do banheiro, devastada

de angelismo e carência. Mesmo assim,

ele me olhou com olhos admirados

e segurou minha mão mais que

um tempo normal a pessoas

acabando de se conhecer.

Nunca mencionou o fato.

Até hoje me ama com amor

de vagarezas, súbitos chegares.

Quando eu sei que ele vem,

eu fecho a porta para a grata surpresa.

Vou abri-la como o fazem as noivas

e as amantes. Seu nome é:

Salvador do meu corpo.



Adélia Prado


 

PARA LER GRACILIANO RAMOS


Por isso, em cenas admiráveis (como o referido jantar, o jogo de pôquer, o jogo de xadrez), soldam-se a descrição dos incidentes e a caracterização dos personagens, formando unidades coesas, na medida em que são atravessadas pelo solilóquio, isto é, pela obsessão do narrador. À técnica, praticada segundo molde queirosiano, junta-se algo próprio a Graciliano: a preocupação ininterrupta com o caso individual, com o ângulo do indivíduo singular, que é — e será — o seu modo de encarar a realidade. No âmago do acontecimento está sempre o coração do personagem central, dominante, impondo na visão das coisas a sua posição específica. O estudo de qualquer das cenas mencionadas revela claramente a estreita correlação entre técnica e atitude em face da vida, mostrando que o interesse pelos fatos decorre dum interesse prévio pela situação do homem frente a eles.

“Evaristo Barroca soltou o baralho:

— Fala o senhor.

— Mesa.

Eu pensei nas amarguras que me iam aparecer no dia seguinte. O que eu devia fazer era esperar o Neves à saída da sessão de espiritismo e dar-lhe uma sova. Era o que eu devia fazer, mas sou um indivíduo fraco, desgraçadamente.

— Para iniciar aposto apenas uma, disse Evaristo com aquela voz sossegada, aquele olhar tranqüilo que nunca mostra o que tem por dentro.

— Vejo, doutor.

A atirei a ficha.

— Que tem o senhor? perguntou ele.

Mostrei uma trinca de damas.

— Ganha.

E franziu os beiços delgados.

— Homem, essa agora! exclamou Valentim Mendonça. O doutor estava feito. Como foi que o senhor conheceu que aquilo era bluff? O doutor não pediu.

Abandonei um par de ases:

— Preciso falar com o senhor hoje ou amanhã, seu Mendonça. Com o senhor e com seu pai. Ele está aí?

Mendonça filho levantou o queixo quadrado e propôs que fôssemos procurar Mendonça pai. Se era assunto de interesse, devíamos ir logo.

— Como! bradou o Pinheiro. Negócio a esta hora? É uma indignidade. Outro bluff, doutor? Muito bem. O bluff é uma grande instituição. Dê cartas, Mendonça, que diabo! Você está namorando com o Valério?

Arriscou uma abertura com trinca branca e atacou o Miranda, que tinha seqüência:

— É possível? Você pede duas e faz seqüência? E máxima? Abra os dedos, criatura, isso assim na mão ninguém vê. Confiança, naturalmente, todos nós somos de confiança, mas jogo é na mesa, e tenho visto muita seqüência errada.

Joguei duas horas, distraído.

O que eu queria era saber por que razão não me vinha o ânimo de esbofetear o Neves uma tarde, à porta da farmácia. No bilhar do Silvério levantei o taco para rachar a cabeça do dr. Castro. E arreceava-me de molestar o Neves. Por que será que aquele velhaco me faz medo?

— Joga?

— Jogo, respondi separando três reis.

Evaristo reabriu.

— Outra reabertura, doutor? Santa Maria! O senhor leva o dinheiro todo, reclamou Valentim Mendonça.

Tirei um rei. Evaristo e Mendonça não quiseram cartas. Já que me faltava coragem, não seria mau dar cinqüenta mil-réis a Manuel Tavares e mandar que ele desancasse o boticário, no Chucuru, que é quase deserto.

— Fala você, João Valério, resmungou o tabelião. Assim não se acaba com isto.”

Neste ziguezague minucioso e admiravelmente construído, o pormenor banal, tão caro às tendências naturalistas, é alinhavado e tornado significativo pela presença constante dos problemas pessoais de João Valério. Sem haver introspecção, a vida interior se configura graças à situação do personagem, num contexto de fatos e acontecimentos. Forma-se um estado reversível, levando a uma perspectiva dupla em que o personagem é revelado pelos fatos e estes se ordenam mediante a iluminação projetada pelos problemas do personagem. Esta idéia de situação parece uma das chaves para compreender a obra de Graciliano Ramos, e em Caetés já a encontramos funcionando, servida pela técnica pós-naturalista, inclusive o uso predominante do diálogo — via preferencial que, nele, compensa a parcimônia do elemento narrativo e facilita a síntese.


Antonio Candido
em Ficção e Confissão
ensaios sobre Graciliano Ramos
Editora 34. Rio de Janeiro.
1992.

16.6.09

 

LEMBRANÇAS DO INFERNO


Com relação à imensa maioria dos chamados evangélicos, eu penso o seguinte: Como são moralistas, legalistas, leitores da literalidade do Antigo Testamento, que preferem ao Novo, nada entendem do amor e, portanto, não são cristãos. Um bom exemplo disto em minha vida eu tenho em certa figura, da I.B. da L., em BZ, que foi uma das pessoas que mais assassinamente me agrediram, em certa escola da PBZ, onde ele e eu trabalhávamos. Ele não suportava a minha liberdade e o fato de eu ser do amor, não da moralina rastaqüera dos beatos. É pena eu não acreditar em Deus e em Juízo Final, pois bem que gostaria de ver o final desta história.


 

PANEM NOSTRUM


SONETO NO AEROPORTO DE LISBOA

Um chope claro e caro. Um fofo e frio
sanduíche de queijo. Um cafezinho
quente e forte, é verdade, porém mínimo,
muito mal sombreando o chão da xícara.

Mas por que me queixar? Muito pior
já se deu: certa vez, ao próprio Poeta,
Ele mesmo, em Pessoa, dobrada à
moda do Porto não serviram fria?!

Mas estou a brincar... ah, Portugal,
só de ver-te o aeroporto já me rasga
vasta emoção! Não deves pensar mal

deste escriba. Recebe em tua calma
tais ousadias. Foi de ti, afinal,
que herdei a minha língua — e a minha alma...


Ruy Espinheira Filho
em Elegia de Agosto
e outros poemas
Bertrand Brasil. Rio de Janeiro.
2005.

 

SARAPALHA, A ESTÓRIA


E a maleita é a “danada”; “coitadinho” é o perdigueiro; “eles!, a gente do povoado, que não mais existe no povoado; e “os outros” são os raros viajantes que passam lá em-baixo, porque não quiseram ou não puderam dar volta para pegar a ponte nova, e atalham pelo vau.


Primo Argemiro olha o rio, vendo a cerração se desmanchar. Do colmado dos juncos, se estira o vôo de uma garça, em direção à mata. Também, Primo Argemiro não pode olhar muito: ficam-lhe muitas garças pulando, diante dos olhos, que doem e choram, por si sós, longo tempo.


— Está custando, Primo Argemiro...


— É do remédio... Um dia ele ainda há-de dar conta da danada!...


O sol cresce, amadurece. Mas eles estão esperando é a febre, mais o tremor. Primo Ribeiro parece um defunto — sarro de amarelo na cara chupada, olhos sujos, desbrilhados, e as mãos pendulando, compondo o equilíbrio, sempre a escorar dos lados a bamveza do corpo. Mãos moles, sem firmeza, que deixam cair tudo quanto ele queira pegar. Baba, baba, cospe, cospe, vai fincando o queixo no peito; e trouxe cá para fora a caixinha de remédio, a cornicha de pó e mais o cobertor.


— O seu inchou mais, Primo Argemiro?


— Olha aqui como é que está... e o seu, Primo?


— Hoje está mais alto.


— Inda dói muito?


— Melhorou.


É da passarinha. No vão esquerdo, abaixo das costelas, os baços jamais cessam de aumentar. E todos os dis eles verificam qual foi o que passou à frente.


Um barulho. É o cachorro magro, que agita as orelhas dormindo, e dorme alertado, com o focinho cúbico encostado no chão.


Primo Argemiro espera um pouco. Aí, ele se espanta. De há muitos anos, dia trás dia, tem a hora do perdigueiro dormir ali perto, e a horinha do perdigueiro sacudir as orelhas, que é o momento de Primo Ribeiro dizer:



— Vida melhor do que a nossa...


Para Primo Argemiro, eternamente, responder:


— É sim...


E, agora, Primo Ribeiro não falou. Por que? Ficou mudo, espiando as três galinhas, que ciscam e catam por ali. Por que?... Está desfiando a beirada do cobertor, com muita nervosia de unhas. É preciso perguntar-lhe alguma coisa.


— Será que chove, Primo?


— Capaz.


— Ind’hoje? Será?


— ‘Manhã.


— Chuva brava, de panca?


— Às vez...


— Da banda de riba?


— De trás.


O passopreto, chefe dos passopretos da margem esquerda, pincha num galho de cedro e convoca os outros passopretos, que fazem luto alegre no vassoural rasteiro e compõem um kraal nos ramos da capoeira-branca. Vão assaltar a rocinha; mas, antes, piam e contrapiam, ameaçando um hipotético semeador:


— Finca, fin-ca, qu’eu ‘ranco! Qu’eu ‘ranco!...



João Guimarães Rosa

Sarapalha

em Sagarana

José Olympio. Rio de Janeiro.

4ª edição. 1956.


15.6.09

 

COMO DOIS E DOIS SÃO QUATRO

Bem, até que enfim as coisas estão nos devidos lugares, como sempre deveriam ter estado. Estamos lá em cima e, olhando de lá poço abaixo, dá uma pena danada dos pobres que lutam por um lugarzinho ao sol.

 

PANEM NOSTRUM


SONETO DO SÁBIO ÓCIO

Não mudarei em nada a minha vida
para alcançar outra melhor na morte.
Dou-me aos azares, sim, arrisco a sorte,
mas aqui, neste mundo, nesta lida

em que me sinto, sou. Vida, se houver,
depois da morte, valeria a pena
sendo como esta vida: densa, plena
de ganhos, perdas, sonhos — e mulher.

Mas, sendo assim, não há por que trocar.
Se assim não for, trocar não tem sentido.
Melhor, portanto, nada barganhar.

Isto é o mais sábio. O que me ensina o ócio
desta manhã. E sou-lhe agradecido
não me deixar fazer um mau negócio.


Ruy Espinheira Filho
em Elegia de Agosto
e outros poemas
Bertrand Brasil. Rio de Janeiro.
2005.

 

VOZES DO GOLPE


Chegamos ao final da praia, no quarteirão entre as ruas Joaquim Nabuco e Francisco Otaviano. Soldados e oficiais, à paisana, enchiam sacos de areia e com eles impediam o acesso àqueles últimos metros da Avenida Atlântica. Um oficial gordo, que do uniforme de campanha só tinha a cartucheira em volta da enorme cintura, com a juda de alguns soldados igualmente à paisana, arrumava uns paralelepípedos no meio da pista, encostados aos sacos de areia. havia uma obra na calçada e um monte de pedras ali juntadas para reposição. Os soldados as traziam e o oficial, concentradamente, colocava uma em cima da outra, armando uma espécie de trincheira. Não havia sinal de batalha ou de violência iminente. Fui até o oficial e perguntei para que era aquilo tudo. Ele me olhou com seriedade, custou a responder, finalmente disse em voz baixa, como se revelasse um segredo de estado-maior:


— Tomamos o Forte. Mas se os tanques do Primeiro Exército vierem retomá-lo, teremos de impedir.


De pergunta em pergunta, ficamos sabendo que a tomada do Forte de Copacabana era praticamente a vitória dos rebeldes contra o governo de João Goulart. Os estrategistas do golpe supunham uma desesperada resistência por parte das tropas sediadas no Rio, que estariam preparadas para enfrentar o exército que o general Amauri Kruel estaria trazendo de São Paulo para, juntamente com o exército do general Mourão Filho, vindo de Juiz de Fora, ocupar o Rio, presumível foco de aliados do governo que estava sendo deposto.


Assim informados, Drummond e eu decidimos voltar para casa, teríamos melhor conhecimento da situação ao lado do rádio e da tevê, que estavam excitadíssimos com a cobertura integral daquele vai-e-vem de soldados, tanques e canhões pelas ruas do Rio, atravancando o tráfego e sendo fotografados à saciedade.


Um tiro explodiu perto de nós e uma pequena nuvem de fumaça elevou-se na esquina da Atlântica com a Joaquim Nabuco.


Antes que houvesse uma correria, um início de pânico, procuramos abrigo na praia, pulando para a areia do Posto Seis, areia já manchada de sangue em 1922, em outra tentativa militar de depor um presidente. Quando se trata de política, o raio costuma cair sempre nos mesmos lugares.


O nível da pista era de aproximadamente um metro acima da praia, ali estaríamos abrigados de uma bala perdida que sobrasse para nossos lados.

Felizmente, fora um tiro isolado. A fumaça logo se desfez e voltamos à pista para ver o que teria acontecido. E estava acontecendo ainda.


Um oficial somente com a calça do uniforme da Marinha, com a arma ainda quente do disparo, chutava alguma coisa no chão. Era um rapz de short esmolambado, busto magro e nu, molhado pelo chuvisco que continuava caindo. Ficamos sabendo que o rapaz, operário de construção numa obra ali perto, havia dado um “Viva Brizola!” (ou um “Viva Jango!”) provocando a ira do oficial. O tiro fora dado para o ar, tiro de intimidação segundo as regras militares, mas os chutes não eram de simples intimidação, eram violentos, nas costelas magras e indefesas do operário.


Quase ao mesmo tempo, um clamor percorreu a Avenida Atlântica. O rádio havia noticiado que a tropa sediada no Rio não lutaria contra as tropas que vinham de São Paulo e Minas Gerais. Houvera uma reunião dos chefes militares na Escola Militar das Agulhas Negras, no meio do caminho, em Resende — não mais seria derramado o sangue de irmãos. Era o fim do governo Goulart, o fora que o Correio da Manhã havia pedido naquela manhã.



Carlos Heitor Cony

A Revolução dos Caranguejos

vozes do golpe

Companhia das Letras. São Paulo.

2004.


14.6.09

 

LEMBRANÇAS DO INFERNO


"O T.", me dizia em poucas e precisas palavras o J., sujeito admirável apesar de irmão do T., “ o T., Tristão, é um filho-da-puta”.

 

PANEM NOSTRUM


JANELAS


Minha amada me diz: — Mete.

Céus! Me sinto um meteoro —

e vou indo, feito um globo,

feito um bobo, uma vedete,

um luminoso sinistro.

Ela quer, alguém diria

(quem diria?), ela reflete

compenetrada alegria

por me sentir tão minério,

penhascos e companhia:

essa praia e seus mistérios.

A natureza copia

o que inventamos, aéreos.

Minha amada me diz: — Vem.

Um turbilhão nos trabalha.

O mesmo nos atrapalha,

como quem diz: — Eu também.

Palavras giram no avesso

e nelas nos reconheço

alados, entrelaçados

e realçados por essas

sombras de traços,

espaços

de intraduzíveis janelas.



Rubens Rodrigues Torres Filho

Novolume. Iluminuras. 1997.


 

VOZES DO GOLPE


Seu Afonso precisava de uma definição. Se não fossem começar a obra naquela semana, ele tinha outros serviços para a sua turma. E então estariam ocupados por dois meses, talvez mais. Rogério propôs que começassem a tapar os buracos e a raspar as paredes para a pintura mas não tocassem na sala de frente do primeiro andar. A do carpete.

— O senhor não acha melhor botar todo o prédio abaixo?

— Isso a gente vê depois.

— Vamos restaurar e pintar essa monstruosidade, e depois, talvez, demolir?

— É, seu Afonso. Quando eu decidir o que fazer, lhe aviso.

— Vamos er no que vai dar — suspirou seu Afonso.

A mãe de Rogério costumava dizer que era um erro chamar velhice de “idade avançada”. Era “idade atrasada”, isso sim. E ela se transformara numa prova disso, esquecendo coisas, trocando nomes, comportando-se como uma criança. Ultimamente dera para resistir às freqüentes idas à casa do irmão de Alice, que gostava de reunir a família com qualquer pretexto e sempre insistia na presença da dona Dalvinha, a sogra da irmã.

— Nós não somos do mesmo nível deles, Rogério. Eu não me sinto bem.

— Que bobagem é essa, mamãe?

A senhora sempre gostou da família da Alice. E agora vai conhecer a casa nova do Léo. O lugar é muito bonito. Um condomínio horizontal, lindo.

— Eu não me sinto bem, meu filho. Ele é tão rico.

— Mamãe: eu sou mais rico do que ele.

— Eu sei. Mas mesmo assim.

Era aniversário do cunhado. No meio do churrasco, Léo gritou para a mãe do Rogério, que até ali recusara tudo o que lhe ofereciam e confessara para o filho, num cochicho, que esquecera como usar talheres:

— Dona Dalvinha, convença esse seu filho a tirar umas férias. A alice diz que ele anda impossível.

— Ele sempre foi assim. Quando era garoto...

— Iiih — anunciou Amanda. — Lá vem a história do pêssego!

— Ele comia pêssego como se fossem roubar da mão dele. Sujava toda a camisa. Só faltava morrer engasgado com o caroço, por mais que eu avisasse.

De todos os desgostos que Rogério, o único filho, dera aos pais, incluindo o envolvimento em política, a prisão e o exílio, dona Dalvinha escolhera a história do pêssego para anular todas as outras. O pai de Rogério era carpinteiro. Morrera quando ele estava no exílio. Só ao embarcar para Portugal, com a roupa do corpo e o corpo ainda dolorido da tortura, o nariz ainda inchado, Rogério descobrira que o pai pertencia a uma organização religiosa com ramificações internacionais e através dela conseguira seu exílio, que iniciara em Cabo Verde. E só na volta ao Brasil descobrira que o pai lhe deixara uma razoável herança em dinheiro, com o qual começara a comprar propriedades para revender, e a enriquecer com a sofreguidão com que se atirara na política e comia pêssego. As cartas do pai para o filho exilado eram secas, mal escritas. Ele tentava catequizar o filho, convencê-lo a esquecer a política e se dedicar à religião, e expiar o desgosto que causara nos pais. Na religião encontraria o que procurava com tanta ansiedade, a salvação, a justiça, o que fosse. Dona Dalvinha resumira tudo na história do pêssego.


Luís Fernando Veríssimo
em A Mancha
vozes do golpe
Companhia das Letras. São Paulo.
2004.

13.6.09

 

LEMBRANÇAS DO INFERNO


BZ, como as noites da literatura árabe, tem 1.001 bares, aonde vão as pessoas para se agredirem e falarem mal da vida alheia. Além de medíocre, é uma cidade neurótica e neurotizante.


 

PANEM NOSTRUM


NO PRINCÍPIO

Filosofia então teve início
na tentativa de liquidação
do universo (arranjo,
adereço, cosmético): promessa
de fluidez sem caroço
e coisa e Tales.

Meditações mediterrâneas. Hidráulica
arcaica. Absoluto
dissoluto.

A primeira
imprecisão é a que fica?


Rubens Rodrigues Torres Filho
Novolume. Iluminuras. 1997.

 

BRASIL POR QUEM VIU


A pluralidade de mulheres lhes é permitida; podem ter quantas desejem. As mulheres, porém, não têm o mesmo privilégio; devem contentar-se com um só marido e não podem, tampouco, abandoná-lo para se entregar a outro homem. Entretanto, embora a poligamia seja permitida aos homens, satisfazem-se eles, em sua maioria, com uma só mulher. Somente a fim de ganhar certo prestígio tomam muitas mulheres. São nesse caso julgados grandes homens e se tornam os principais das aldeias.


Mais de uma vez fizemos-lhes ver que Tupã não quer que o homem tenha mais de uma mulher e que os que têm muitas não podem ser seus filhos e permanecem filhos de Jurupari. “Bem sabemos”, respondiam, “que uma só mulher é suficiente para um homem, e não é para satisfazer nossos desejos que temos mais de uma, mas apenas por causa do prestígio e também para a limpeza da casa e o trabalho nas roças”. Além disso, exterminando-se os homens em guerras contínuas, ficam inúmeras mulheres sem maridos. E isso, penso eu, obriga-as a aceitar um só marido.


Os pais não podem possuir suas filhas, nem os irmãos, suas irmãs. Nenhum outro grau de consangüinidade os impede, porém, de casar e de tomar o número de mulheres que desejem. E como o casamento é fácil, igualmente fácil é desmanchá-lo, bastando para tal a vontade recíproca dos cônjuges. Se um homem deseja tomar esposa, depois de comunicá-lo à interessada, consulta seus pais ou irmãos sobre seu consentimento. Respeitam, portanto, os pais e parentes próximos, ao contrário de muitos católicos que, para satisfação única de seus desenfreados desejos, casam até contra a vontade deles.


Não se incomodam com bens, nem procuram riquezas. Apenas obtido o consentimento do pai ou irmão, consideram-se casados, o que não exige cerimônia nem implica em promessa recíproca de indissolubilidade ou perpetuidade, caráter essencial do nosso casamento. Ao contrário, se lhe apetece, o marido expulsa a mulher, e a repudia se o ofende. Por seu lado, se a mulher se sente farta do marido e lhe diz não mais querê-lo ou desejar outro, responde-lhe o esposo sem se perturbar: “ecoain”, isto é, “vá para onde quiser”. A mulher pode então entregar-se a outro homem sem inconvenientes. E pode largar o segundo, como fez com o primeiro, o mesmo sendo permitido ao homem.


É comum entre eles prometerem suas filhas ainda crianças aos principais da tribo, ou aos que têm em amizade. Sustentam-nas contudo, até alcançarem a idade de casar, entregando-as então a quem as haviam prometido e que as aceitam por mulher nas mesmas condições anteriores, isto é, com a faculdade de se repudiarem mutuamente a seu bel-prazer.



Claude d’Abbeville

em Brasil

A História Contada por quem Viu

Jorge Caldeira (org.)

Mameluco. São Paulo.

2008.


12.6.09

 

PANEM NOSTRUM


COMUNICAÇÃO


Lebres comunicam-se em lebrês.
Na primavera acasalam-se uma vez por mês.
Destacam-se nas festas pelo luxo das librés
que envergam sem empáfia mas com altivez,
mantendo-se a distância do mundo burguês
e sua cega crença de que dois e dois são três.
Ocultam castamente o tio-avô francês
que poderia enobrecê-las de viés.
Nada acrescentam, mas com sensatez.
Detestam sugerir algum “talvez”.
Quando em pânico permitem-se — através
de uma dialética bem fácil — trocar as mãos pelos pés.
Normalmente se contentam (e nada mais acrescentam)
com um bem redondo “yes”.


Rubens Rodrigues Torres Filho
Novolume. Iluminuras. 1997.

 

OS NOVOS INCONFIDENTES 136


HONÓRIO QUARTIERI

2º TENENTE — MINISTÉRIO DO

EXÉRCITO

Sanção: Reforma.

D.O.: 28-09-1964, p. 8685.


HORÁCIO CARLOS DOS SANTOS

MELLO

ARTÍFICE — MINISTÉRIO DA VIAÇÃO E

OBRAS PÚBLICAS - MVOP

Sanção: Demissão.

D.O.: 09-10-1964, p. 9217.


HORST JOSÉ BEZERRA

OPERÁRIO — LLOYD BRASILEIRO

Sanção: Demissão.

D.O.: 09-10-1964, p. 9213.


HORTÍLIO PEREIRA DE CASTRO

AGENTE FISCAL DO IMPOSTO DE

RENDA

Sanção: Demissão.

D.O.: 01-10-1964, p. 8838.


HOTELO TELLES DE ANDRADE

AGENTE DE POLÍCIA FEDERAL

Sanção: Aposentadoria.

D.O.: 25-01-1978, p. 1387.


HUBERTO MENEZES PINHEIRO

ESCRITURÁRIO — BANCO DO BRASIL

Sanção: Demissão.

D.O.: 07-10-1964, p. 9086.


HUDSON ALFREDO DE MIRANDA

ESTAFETA — MINISTÉRIO DA VIAÇÃO E

OBRAS PÚBLICAS - MVOP

Sanção: Demissão.

D.O.: 08-10-1964, p. 9139.


HUGO AMORIM DE LIMA

MAJOR — MINISTÉRIO DO EXÉRCITO

Sanção: Transferência para a Reserva.

D.O.: 11-04-1964, p. 3259.

Sanção: Reforma.

D.O.: 31-07-1964, p. 6819.


HUGO ANTÔNIO RONCONI

PREFEITO - VILA VELHA/ES

Sanção: Suspensão de direitos políticos e

cassação de mandato.

D.O.: 01-07-1969, p. 5532.

SERVENTUÁRIO DA JUSTIÇA - ES

Sanção: Aposentadoria.

D.O.: 14-09-1970, p. 7969.


HUGO CAMPOS DE ABREU

2º TENENTE — POLÍCIA MILITAR/PR

Sanção: Reforma.

D.O.: 27-04-1970, p. 3049.


HUGO DE ARAÚJO FARIA

OFICIAL DE ADMINISTRAÇÃO —

MINISTÉRIO DO TRABALHO E

PREVIDÊNCIA SOCIAL - MTPS

Sanção: Demissão.

D.O.: 06-10-1964, p. 9025.


HUGO DE CARVALHO

AGENTE FISCAL DO IMPOSTO DE

RENDA

Sanção: Demissão.

D.O.: 01-10-1964, p. 8838.


HUGO DE SOUZA LOPES

PESQUISADOR EM BIOLOGIA —

MINISTÉRIO DA SAÚDE

Sanção: Suspensão de direitos políticos.

D.O.: 02-04-1970, p. 2452.

Sanção: Aposentadoria.

D.O.: 06-04-1970, p. 2544.


HUGO DE SOUZA XAVIER

CARTEIRO — MINISTÉRIO DA VIAÇÃO E

OBRAS PÚBLICAS - MVOP

Sanção: Aposentadoria.

D.O.: 09-10-1964, p. 9212.


11.6.09

 

RIO DE JANEIRO


 

LEMBRANÇAS DO INFERNO


O CD. dizia que o B. dava o golpe do eu vou morrer amanhã. Fazia sentido, mas era também mais uma das maldades sem conta do CD., um homem sem coração.


 

PANEM NOSTRUM


EX-VOTO

Na tarde clara de um domingo quente
surpreendi-me,
intestinos urgentes, ânsia de vômito, choro,
desejo de raspar a cabeça e me pôr nua
no centro da minha vida e uivar
até me secarem os ossos:
que queres que eu faça, Deus?
Quando parei de chorar
o homem que me aguardava disse-me:
você é muito sensível, por isso tem falta de ar.
Chorei de novo porque era verdade
e era também mentira,
sendo só meio consolo.
Respira fundo, insistiu, joga água fria no rosto,
vamos dar uma volta, é psicológico.
Que ex-voto levo à Aparecida,
se não tenho doença e só lhe peço a cura?
Minha amiga devota se tornou budista,
torço para que se desiluda
e volte a rezar comigo as orações católicas.
Eu nunca ia ser budista,
por medo de não sofrer, por medo de ficar zen.
Existe santo alegre ou são os biógrafos
que os põem assim felizes como bobos?
Minas tem coisas terríveis,
a Serra da Piedade me transtorna.
Em meio a tanta rocha
de tão imediata beleza,
edificações geridas pelo inferno,
pelo descriador do mundo.
O menino não consegue mais,
vai morrer, sem forças para sugar
a corda de carne preta do que seria um seio,
agora às moscas.
Meu coração é bom
mas não aceita que o seja.
O homem me presenteia,
por que tanto recebo,
quando seria justo mandarem-me à solitária?
Palavras não, eu disse, só aceito chorar.
Por que então limpei os olhos
quando avistei roseiras
e mais o que não queria,
de jeito nenhum queria àquela hora,
o poema,
meu ex-voto,
não a forma do que é doente,
mas do que é são em mim
e rejeito e rejeito,
premida pela mesma força
do que trabalha contra a beleza das rochas?
Me imploram amor Deus e o mundo,
sou pois mais rica que os dois,
só eu posso dizer à pedra:
és bela até à aflição;
o mesmo que dizer a Ele:
sois belo, belo, sois belo!
Quase entendo a razão da minha falta de ar.
Ao escolher palavras com que narrar minha angústia,
eu já respiro melhor.
A uns Deus os quer doentes,
a outros quer escrevendo.


Adélia Prado
em Oráculos de Maio
Record. Rio de Janeiro. 2007.

 

A FALA DO IMPERADOR


Parece-me que estou ouvindo a S. Mateus, sem ser Apóstolo pescador, descrevendo isto mesmo na terra. Morto Herodes, diz o Evangelista, apareceu o anjo a José no Egito, e disse-lhe que já se podia tornar para a pátria, porque eram mortos todos aqueles que queriam tirar a vida ao Menino: Defuncti sunt enim qui quaerebant animam Pueri (Mat. II – 20). Os que queriam tirar a vida a Cristo Menino eram Herodes e todos os seus, toda a sua família, todos os seus aderentes, todos os que seguiam e pendiam da sua fortuna. Pois é possível que todos estes morressem juntamente com Herodes? Sim: porque em morrendo o tubarão, morrem também com ele os pegadores: Defuncto Herode, defuncti sunt qui quaerebant animam Pueri. Eis aqui, peixezinhos ignorantes e miseráveis, quão errado e enganoso é este modo de vida que escolhestes. Tomai exemplo nos homens, pois eles o não tomam de vós, nem seguem, como deveram, o de Santo Antônio.


Deus também tem os seus pegadores. Um destes era Davi, que dizia: Mihi autem adhaerere Deo bonum est (salmo LXXII, 2). Peguem-se outros aos grandes da terra, que eu só me quero pegar a Deus. Assim o fez também Santo Antônio, e senão, olhai para o mesmo Santo, e vede como está pegado com Cristo, e Cristo com ele. Verdadeiramente se pode duvidar, qual dos dois é ali o pegador; e parece que é Cristo, porque o menor é sempre o que se pega ao maior, e o Senhor fez-se tão pequenino, para se pegar a Antônio. Mas Antônio também se fez Menor, para se pegar mais a Deus. Daqui se segue que todos os que se pegam a Deus, que é imortal, seguros estão se morrer como os outros pegadores. E tão seguros, que ainda no caso em que Deus se fez homem, e morreu, só morreu para que não morressem todos os que se pegassem a ele: Bem se viu nos que estavam já pegados, quando disse: Si ergo me quaeritis, sinite hos abire (João, XVIII, 8): Se me buscais a mim, deixai ir a estes. E posto que deste modo só se podem pegar os homens, e vós, meus peixezinhos, não, ao menos devereis imitar aos outros animais do ar e da terra, que quando se chegam aos grandes, e se amparam do seu poder, não se pegam de tal sorte que morram juntamente com eles. Lá diz a Escritura daquela famosa árvore, em que era significante o grande Nabucodonosor, que todas as aves do céu descansavam sobre seus ramos, e todos os animais da terra se recolhiam à sua sombra, e uns e outros se sustentavam de seus frutos: mas também diz que tanto que foi cortada esta árvore, as aves voaram, e os outros animais fugiram. Chegai-vos embora aos grandes; mas não de tal maneira pegados, que vos mateis por eles, nem morrais com eles.



Padre Antônio Vieira

no Sermão de Santo Antônio aos Peixes


10.6.09

 

PANEM NOSTRUM


TÁ BEM?

Deixem-me amar profundamente
A tudo
A todos
Tá bem?

Deixem-me amar profundamente
Com o corpo
Com a alma
Com o amor
Tá bem?

Depois eu vos recompensarei
Amando-vos
Tá bem?


Solano Trindade

9.6.09

 

MINHA TERRA TEM PALMEIRAS