SARAPALHA

Literatura, literatura & literatura. Mas política também, às vezes. Mais história que política... E religião, mas que nos entendamos bem... E filosofia. E meu estado de espírito, quando der na telha. Enfim, um balaio de gatos. Mas com certo método na loucura...

23.11.09

 

DEUS


O UM E OS MUITOS


Quando perguntaram a um notável editor norte-americano por que tinha escolhido a carreira de editor, ele respondeu: “Meu pai era um leitor; minha mãe, uma trabalhadora”. Eu sou meu pai e minha mãe, era o que ele insinuava; publicar um livro permite-me vivenciar minha contradição. Desde o momento da concepção, quando 23 cromossomos de um macho e 23 cromossomos de uma fêmea transformam-se na primeira célula de um novo ser humano, somos definidos por nossa divisão interior. Nossa única identidade é uma falta de identidade. Nada temos de nosso. Sobre essa divisão inicial operam outras divisões: racial, cultural, ocupacional, temperamental. A canção “Eely Meely and a-Miley Mo” — que minha filha de nove anos, Kathleen, canta na escola com seus colegas — tem uma quadra bem norte-americana, assim:


Minha mãe era doutora,

espião era meu pai,

e eu sou o joão-ninguém

que contou pro FBI.


Quando garoto dos meus catorze anos, ouvi em Chicago uma versão de versos que James Joyce havia tornado famosos:


Minha mãe era judia,

meu pai era vagabundo,

e eu sou o cara mais estranho

que jamais falou no mundo.


Geneticamente, todo mundo é fruto de um casamento misto, pois, a não ser pela clonagem, não existe nenhum outro tipo de casamento. Mas, como sugerem as canções infantis, a genética é só o começo.


A justificativa mais profunda para a leitura do Tanach como biografia de Deus é que, assim como muitíssimas biografias de seres humanos, ela acompanha as divisões de um personagem à medida que elas vão se expressando na obra de uma vida. Antes de existir um editor bem-sucedido, havia, em outras palavras, um jovem com pendores contraditórios. “Está tentando descobrir o que fazer da vida”, dizemos. E a expressão está perfeitamente correta: tentar não só encontrar alguma coisa para fazer, mas descobrir algo a fazer consigo mesmo. Nem sempre, mas muitas vezes esse estágio de divisão e busca interior termina numa obra que permite que as personalidades — dupla ou múltiplas — coexistentes dentro de um determinado personagem imaturo encontrem expressão simultânea e que assim se fundam numa identidade madura e dinâmica. Nem sempre, mas muitas vezes a obra acaba comprometida pela própria tensão interior que inicialmente fez dela um sucesso. Para continuar com o exemplo do editor, a partir de um certo momento pode se tornar impossível ser ao mesmo tempo leitor e trabalhador. A empresa e a identidade podem então desmoronar. Ou, com maior freqüência, a empresa pode se transformar e passar para outras mãos, enquanto a personalidade sobrevive.


O Senhor Deus não tem mãe nem pai, mas as outras contradições engendradas por seu caráter acabam encontrando expressão em sua vida. Seu caráter funde-se, explode e — é aqui que o Tanach difere mais notavelmente do Antigo Testamento — desintegra-se sem desaparecer. É interessante notar que o hebraico bíblico não tem nenhuma palavra para história, e o Tanach não termina como terminaria uma história bem escrita. As vidas reais, porém, jamais terminam assim. O fracasso do Tanach é aqui um sucesso. A morte chega para muitos, senão para a maioria dos seres humanos, como uma interrupção. Os sobreviventes ficam pensando não sobre a história que acabou, mas sobre a pessoa que se foi.


É assim no fim do Tanach. Um clássico desconcertante, produzido por incontáveis mãos literárias ao longo de muitas centenas de anos, mantém-se coeso graças a seu personagem central muito mais do que devido a qualquer estrutura rígida ou tema épico. O Senhor Deus está em guerra consigo mesmo, mas sua guerra é só sua, pois culturalmente falando vivemos com ele há séculos. Antes de encontrá-lo, todo mundo absolutamente todo mundo, já ouviu falar dele. De quem mais se pode dizer a mesma coisa?


Quando lhe perguntaram se acreditava em Deus, o psicólogo Carl Jung deu uma resposta famosa: “Não acredito. Sei.” É possível “saber” Deus? Deixo essa pergunta sem resposta. O que afirmo é simplesmente que a vida de Deus, conforme se encontra nas páginas da Bíblia, pode ser narrada. Este livro pretende ser essa narrativa.



Jack Miles

em Deus

uma biografia

Companhia das Letras. São Paulo.

1997.


21.11.09

 

ROSA-DOS-TEMPOS


Um dia, sem saber os hajas, não pôde, não podia, afracara, se desmerecendo. Mulher perguntou se ele queria beber gol, se doente estava. Não que não. Faziam rumor, noutro quarto. Essa mulher tinha uma navalha. Soropita sem momento se escapava da cama, pressurado, foi-se vestindo. A mulher era até bonita, vistosa, se lembrava: um tim de ruiva, clara, com fino de sardas, salmilhada de sardas até no verde dos olhos, pingadinhos-de-mosquito de ferrugem, folha de jatobá. Revirou, ojerizada: — “Tu pode me desprezar? A grama que burro não comer, não presta mesmo p’ra gado nenhum. Mas tu acha que eu estou velha?! Muito engano: mulher só fica velha é da cintura para cima...” Som nem tom, ele meteu a mão na algibeira e pagou, mais do que o preço devido, ela não queria aceitar. Saíu desguardado, labasco, lá demorara menos que passarinho em árvore seca. A lanços, até hoje lhe fazia mal, o nome que aquela mulher disse, xingou aquilo como um rogo de praga. Na beira do Espírito-Santo, não longe do Ão, vivia um pobre de um assim, o senhor Quincorno — ainda no viço da idade, mas sorvada sua força de homem, privo do prazer da vida. A mulher desse vadiava com muitos, perdera o preceito: — “Respeitar? Ele não dá café nem doce...” — era o que ela demostrava do marido. — “Debaixo de cangalha, não se põe baixeiro...” O triste seo Quincorno não esbarrava de tomar meizinhas, na esperança. Não resignava. Tomava pó de bico de picapau torrado, na cachaça, chá de membro de coati, ou infuso, chá de raiz de verga-tesa — coisas de um nunca precisar, deus-livre-guarde. Mal a mal, com Doralda, uma vez, também tinha acontecido — felizmente foi só algum descaído de saúde, passageiro —; e foi um trago de sofrimentos. Tinha não podido, não, leso, leso, e forcejava por mandar em si, um frio que o molhava, chorava quase, tascava os freios. Doralda, boazinha, dizia que às vezes era mesmo assim, não tinha importância, que nenhum homem não estava livre de padecer um dissabor desse, momentão; passava as mãos nele, carinhosa, pegava nele, Soropita, como se brinca. Mas ele não aceitava de ficar ali, fechando os olhos, num aporreado inteiro, pavoroso fosse mandraca, podia durar sempre assim, mas então ele suicidava; e sobre surdo passava o pensamento daqueles homens, no Brejo-do-Amparo, aqueles valentões, e os outros — ele não queria o reino dos amargos, o passado nenhum, o erro de um erro de um erro. Não queria, porque suportava. Já de manhã, no seguinte, ocultando caçou jeito de aprender a respeito daquelas matérias que se tomavam: bico de picapau, verga de coati, catuaba — duro o que era duro, rijo, levantado e renitente, isso carregava virtude. Melhor de todas, a verga-tesa: aquela plantinha rasteira do cerrado, de folhas miudinhas, estreitinhas, verde-escuro quase pretas, mostrava de Deus sua boa validade — podia a gente querer dobrar, amassar, diminuir, como se fizesse, que ela repulava sempre e voltava a se ser, mandante. Não precisou. A já na outra noite, ele se prezava de tudo, são de aço, aquela felicidade. Só muitos meses, adiante, a quebra de moleza quis voltar, mas que não foi grave. Ao que ele teve, para se salvar, no instante, a idéia de invenção de imaginar e lembrar as coisas impossíveis, mundo delas; e Doralda, a língua, arrepios no pescoço dele, nas orelhas, como ela sabia — muito ditosamente que tudo se passou. A partir dali, nunca teve mais nenhum rebate. Precisava de tomar cassinga não; homem era homem até por demais, o que a Deus agradecia. Se não, por que e para que vivia um? Tudo no diário disformava aborrecido e espalhado, sujo, triste, trabalhos e cuidados, desgraceiras, e medo de tanta surpresa má, tudo virava um cansaço. Até que homem se recomeçava junto com mulher, força de fogo tornando a reunir seus pedaços, e em-deus. Depois, se estava retranqüilo, não carecia de pensar mais em demônios de caretas, nem no Carcará, não tinha culpa — na topada não se mira o brabo da rês, só se olha a ponta da vara. — “Mais ligeiro, Caboclim, vamos.”


João Guimarães Rosa
Dão-Lalalão (O Devente)
em Corpo de Baile II
José Olympio. Rio de Janeiro.
1ª edição. 1956.

20.11.09

 

OS NOVOS INCONFIDENTES 156


JOÃO DE OLIVEIRA

3º SARGENTO — MINISTÉRIO DA

AERONÁUTICA

Sanção: Demissão.

D.O.: 28-09-1964, p. 8689.

INVESTIGADOR

Sanção: Demissão.

D.O.: 20-09-1971, p. 7587.


JOÃO DE SEIXAS DÓRIA

ADVOGADO

Sanção: Suspensão de direitos políticos.

D.O.: 04-07-1966, p. 7272.


JOÃO DE SOUZA

AUXILIAR DE TREM — REDE

FERROVIÁRIA FEDERAL S.A. -

RFFSA

Sanção: Demissão.

D.O.: 09-10-1964, p. 9215.


JOÃO DE SOUZA FLÁVIO

AGENTE AUXILIAR DE POLÍCIA

FEDERAL

Sanção: Demissão.

D.O.: 07-03-1972, p. 1927.


JOÃO DE SOUZA LIMA

EMPRESAS INCORPORADAS AO

PATRIMÔNIO NACIONAL - EIPN

Sanção: Demissão.

D.O.: 24-07-1964, p. 6595.


JOÃO DO LAGO NOGUEIRA

PARANAGUÁ

3º SARGENTO — MINISTÉRIO DO

EXÉRCITO

Sanção: Demissão.

D.O.: 31-07-1969, p. 6817.


JOÃO DOCA FILHO

CARPINTEIRO — MINISTÉRIO DA

VIAÇÃO E OBRAS PÚBLICAS - MVOP

Sanção: Aposentadoria.

D.O.: 09-10-1964, p. 9211.


JOÃO DÓRIA

DEPUTADO FEDERAL - BA

Sanção: Suspensão de direitos políticos e

cassação de mandato.

D.O.: 10-04-1964, p. 3217.


JOÃO DURSO FILHO

INSPETOR DE INDÚSTRIA E COMÉRCIO

— SUPERINTENDÊNCIA NACIONAL

DO ABASTECIMENTO - SUNAB

Sanção: Demissão.

D.O.: 15-01-1970, p. 321-2.


JOÃO EDUARDO SECCO

CONTRA-ALMIRANTE

Sanção: Demissão.

D.O.: 09-10-1964, p. 9202.


JOÃO EMÍLIO DE SANTANA

2º SARGENTO — MINISTÉRIO DA

AERONÁUTICA

Sanção: Reforma.

D.O.: 06-10-1964, p. 9029.


JOÃO EVANGELISTA DA SILVA

SIMÕES

MECÂNICO — MINISTÉRIO DA MARINHA

Sanção: Aposentadoria.

D.O.: 09-10-1964, p. 9200.


JOÃO EVANGELISTA DE SOUZA

REDE FERROVIÁRIA FEDERAL S.A. -

RFFSA/RN

Sanção: Aposentadoria.

D.O.: 09-10-1964, p. 9210.


JOÃO EVANGELISTA DE SOUZA

GUERRA

ESCRITURÁRIO — BANCO DO

NORDESTE DO BRASIL S.A. - BNB

Sanção: Dispensa de função.

D.O.: 09-10-1964, p. 9208.


18.11.09

 

NOVA LIMA

A antiga Casa Aristides, agora Escola de Artesanato, em Nova Lima, MG

 

PARA LER MACHADO DE ASSIS


Os contos de Papéis Avulsos, junto com Memórias Póstumas de Brás Cubas, representam um momento de realização extraordinária, que sem dúvida não mais se repetiria. Mas abriram também novas possibilidades, e isso se revelou primeiro nos contos. Os anos que seguiram imediatamente a Papéis Avulsos representam outra espécie de realização. Até mesmo em termos numéricos isso se torna evidente. Papéis Avulsos foi publicado em fins de 1882; nos jornais, Machado publicou, em 1881, quatro contos; em 1882, dez; em 1883, 21; em 1884, 22; em 1885, nove; em 1886, oito. Números que nos anos posteriores ele jamais alcançaria, nem desejaria provavelmente alcançar. Nessa etapa, tem-se a impressão de que o conto correspondia maravilhosamente bem às suas necessidades criativas; Machado não iniciou Quincas Borba até 1886 e mesmo então teve problemas consideráveis com sua composição. Mas não é só uma questão negativa. O mais surpreendente é a qualidade de muitas dessas histórias, que estão entre as suas mais populares e memoráveis. Assim, de 1883 escolhi catorze, e de 1884, treze.


Existem várias explicações possíveis para esse momento de inspiração. Uma está na própria Gazeta de Notícias, com tudo o que representava de modernização na imprensa, e que lhe oferecia o lugar ideal para publicar suas histórias. Outra explicação parcial seria que o material estava lá, à espera apenas do escritor. Como romancista, pelo menos desde Memórias Póstumas de Brás Cubas, existe uma certa tensão entre a estrutura geral dos romances e seus episódios constituintes, que nas Memórias freqüentemente se centram num personagem: Marcela, Eugênia, Quincas Borba, até figuras menores como Luís Dutra ou Jacó Tavares. Deve ter sido um alívio não precisar pensar em estruturas mais amplas; e certamente, quando escreveu Quincas Borba, romance seguinte, foi esse o problema que mais o atormentou. Agora sim, ele pôde entregar-se a seu amor pela anedota. Ao mesmo tempo, tinha muito material novo a seu dispor. A nova ironia que dominara, e sem dúvida um avanço lento nos próprios costumes, significava que certos temas — a prostituição, por exemplo, ou o adultério —, que antes mal poderiam ser mencionados como possibilidades, doravante podiam ser tratados com mais honestidade. Prestem atenção ao tom deste começo de “A Senhora do Galvão”, de maio de 1884, e tentem imaginá-lo antes de 1880: “Começaram a rosnar dos amores deste advogado com a viúva do brigadeiro, quando eles ainda não tinham passado dos primeiros obséquios. Assim vai o mundo”. Essa confiança permitia também uma nova relação, mais ativa, com o leitor, muito marcante nestas obras: vejam, por exemplo, o primeiro parágrafo de “Trina e Una”, onde se ensaia uma espécie de andante muito lento, e que conclui assim: “Que o leitor não se enfastie de tais minúcias; não há aí uma só palavra que não seja necessária”. Todos esses fatores estão relacionados entre si; também seria um erro ignorar uma dimensão internacional da história do conto como gênero literário. Os seus historiadores concordam que o conto adquiriu um novo tipo de respeitabilidade e identidade artísticas por volta dessa época. Maupassant e Tchekhov, por exemplo, publicaram seus primeiros contos em 1880. Trata-se menos de uma questão de influência de escritores específicos do que de mudanças de gosto e atmosfera. Notícias, idéias e modas punham-se em movimento cada vez mais rápido ao longo do século XIX, e Machado sentiu também seus efeitos, sabendo adaptar-se a eles.



John Gledson

Os Contos de Machado de Assis:

o Machete e o Violoncelo

em Machado de Assis Contos/Uma Antologia I

Companhia das Letras. São Paulo. 2004.


 

MINHA TERRA TEM PALMEIRAS


ELE SE CHAMA PIRAPORA

Chama-se Pirapora, o meu corrupião; eu o trouxe lá da beira do São Francisco muito feio, descolorido e sem cauda. Consegui uma licença escrita para poder conduzi-lo; apesar disso houve um chato da companhia aérea que implicou com ele na baldeação em Belo Horizonte. Queria que ele viesse no compartimento de bagagens, onde certamente morreria de frio ou de tédio. Houve muita discussão, da qual Pirapora se aproveitou para conquistar a amizade de um negro carregador, limpando-lhe carinhosamente a unha com o bico. Encantado com o passarinho, esse carregador me ajudou a ludibriar o exigente funcionário, e fizemos boa viagem.

A princípio eu me preocupava em saber o que o bicho comia. Hoje me pergunto o que ele não come. Carne de vaca; verduras, tomate, laranja, goiaba, miolo de pão, mamão, sementes, gema de ovo, palitos de fósforos e revistas ilustradas, praticamente tudo ele come. É mesmo um pouco antropófago, porque devora qualquer pedacinho de pele da mão da gente que descobre. Os alimentos mais secos ele os põe n’água e faz uma espécie de sopinha fria. Come e descome com uma velocidade terrível; tem um metabolismo alucinado, mas respeita rigorosamente a limpeza do canudo de palha em que mora. Adora tudo o que brilha, pedras preciosas ou metais, e fica bicando essas coisas com uma teimosia insensata, como a lamentar que não sejam comestíveis. Passa horas brincando com um pedaço de barbante, mas isso parece que lhe faz um pouco mal aos nervos. Peço às damas visitantes que retirem os anéis quando se aproximam da gaiola.


***

Agora ele está de rabo comprido, penas negras lustrosas e penas alaranjadas vibrantes de cor. Está realmente bonito, voa um pouco pela casa todo dia e toma banho duas vezes ao dia. Enfim, tenho todos os motivos para me orgulhar de meu corrupião; e devia estar contente.

Mas a verdade é muito outra. Há um pequeno drama de família; estamos de mal.

***

Rubem Braga
em Ai de Ti, Copacabana
Sabiá. Rio de Janeiro.
5ª edição. 1969.

16.11.09

 

VOZES DO GOLPE


Eu era o último. Quando saí, 50 Volts e os outros já estavam na caminhoneta, foi montar e tocar. A gorda apareceu na janela enrolada numa toalha, abanou a mão e comecei a pensar. Os caras pagavam até mulher pra nós — a troco de quê? A caminhoneta entrava em curva a mais de cem por hora. De repente dava pressa nos homens, depois de perder tanto tempo.


Começou a chover grosso e a caminhoneta continuou furiosa, zunindo no asfalto molhado. os outros dormiram, todo mundo embolado, joelho com cabeça, cotovelo com pescoço; eu varei a noite de olha estalado. Amanhecendo, comecei a cabecear, 50 Volts acorda e diz que eu devia ter dormido, se estavam com tanta pressa, decerto a gente já chegar trabalhando. Perguntei se ele já tinha comido minha mãe pra me dar conselho, mas ele continuou. Que eu devia ter dormido. Que a barra ia ser pesada. Os homens tinham ordem de entupir a gente de bebida, fazer cada um dar sua bombada, comer carne quente até quadrar, tudo aquilo, pra depois ninguém reclamar folga, só podia saber, claro: — Já viu tanto agrado de graça?


Com aquele céu vermelho, amanhecendo, achei que ele estava exagerando, falei que ninguém morre de trabalhar num domingo. Aí ele falou não sei, acho que a gente não sai de cima dessa ponte até o serviço acabar ou acabarem com a gente...


Os homens pararam pra um café completo, com pão, queijo, manteiga, mel, leite e bolacha. 50 Volts fez careta mas continuei a achar que ele estava exagerando.


Quando vi o Cristo Redentor, dali a um minuto a caminhoneta parou. Era a ponte.


Aquilo é uma ponte que você, na cabeça dela, não enxerga o rabo. Me disseram depois que é a maior ponte do mundo, mas eu adivinhei na hora que vi; só podia ser a maior ponte do mundo. Faltava um mês pra inauguração e aquilo fervia de peão pra cima e pra baixo, você andava esbarrando em engenheiro, serralheiro, peão bate-estaca, peão especializado igual eu, mestre-de-obras, contramestre, submestre, assistente de mestre e todos os tipos de mestre que já inventaram, guarda, fiscal, ajudante de fiscal, supervisor de segurança dando bronca em quem tirava o capacete — e visitante, volta e meia aparecia algum visitante de terno e gravata, capacete novinho na cabeça, tropeçando em tudo e perguntando bobagem. Um chegou pra mim um dia e perguntou se eu não estava orgulhoso de trabalhar na maior ponte do mundo. Respondi olha, nem sabia que é a maior ponte do mundo, pra mim é só uma ponte. Mas ele insistiu. Pois saiba que é a maior ponte do mundo, e trabalhar nela é um privilégio pra todos nós. Aí eu perguntei nós quem? O senhor trabalha no que aqui?


Deu aquele alvoroço, quem pegou meu angu, quem botou caroço, coisa e tal, mas ninguém veio me encher o saco porque um eletricista a menos, ali, ia fazer muita diferença. Tinha serviço pra fazer, deixar de fazer, fazer malfeito; sobrava serviço e faltava gente, mas se botassem mais gente ia faltar espaço naquela ponte. a parte elétrica, quando a gente chegou, estava crua de tudo; o pessoal trabalhava dia e noite com energia de emergência, um geradorzinho aqui, outro ali, bico de luz pra todo lado, fio descascado, emenda feita a tapa. Cada peão daqueles levava mais choque num dia do que um cidadão normal na vida toda.



Domingos Pellegrini

A Maior Ponte do Mundo

em Os Cem Melhores Contos Brasileiros do Século

org. de Ítalo Moriconi

Objetiva. Rio de Janeiro. 2000.


15.11.09

 

PAULO FRANCIS


Teatro me parecia extraordinariamente importante porque era meu métier, logo, em boa parte, o que conto é reflexo da minha vaidade. Mas até certo ponto só. O espírito predominante — o que estarrecerá os jovens de hoje — é que éramos capazes de tudo que quiséssemos e em que nos empenhássemos. Quando Jânio de Freitas reformulou o Jornal do Brasil, ou Reynaldo Jardim o Caderno Dominical do dito-cujo, ou Nahum Sirotsky criou a revista Senhor, a idéia não era superar os produtos similares, que nem entravam em cogitação. Era botar banca no mundo, de maneira original, pessoal, e intransferível.

Vejam a diferença, no reino dos caranguejos. A Editora Abril tem muitos méritos, um dos quais elevar o padrão salarial dos jornalistas. No entanto, nunca produziu uma revista que não fosse cópia escarrada de publicação estrangeira. A idéia de que os excelentes profissionais de que a Editora dispõe e dispôs sejam capazes de gerar algo cosa nostra não entra na cabeça dos donos, que são criaturas do ethos político atual. Nos nossos tempos, era muito diferente, para dizer o mínimo.

Não que fôssemos xenófobos. Na minha cabeça havia um lugar reservado para T. S. Eliot e outro para Gianfrancesco Guarnieri. Digamos que Eliot falava ao macaco mortal aqui, ao desfecho pressentido em whimpers e não em bangs. Lembra aquela história em que Malraux perguntou o que aconteceria numa sociedade socialista quando um bonde atropelasse uma criança, e o coro habitual respondeu que um motorneiro socialista não erraria. Nunca fui rinoceronte de Ionesco, nem meus melhores amigos, apesar de alguns momentos de delírio (mea culpa, mea culpa. Prometi a Flávio Rangel, certa vez, uma cadeia longa, se bem que com todos os confortos americanos.).

Mas não consigo transmitir aos mais jovens o que era, por exemplo, ver uma estréia de Jorge Andrade, escavando a consciência da classe dirigente latifundiária, as descobertas, as identificações, os choques verbais de puro prazer, a descoberta do Brasil, que nada tem em comum com a versão oficial em que Cabral perdeu a tamanqueira. As pessoas polemizavam furiosamente. Uma estréia era sucedida de debates nos restaurantes e bares que terminavam na página escrita dos jornais. Tudo parecia importante porque não tínhamos certeza de nada, exceto da nossa vontade, obsessão, mesmo, de conhecer a realidade a que estávamos condicionados como brasileiros. Nenhum prazer de consumo cultural, que gozo hoje às pampas em Nova York, se compara a essa sensação.


Paulo Francis
Uma Coletânea de seus Melhores Textos
já Publicados
Editora Três. São Paulo.
1978.

 

NOSSA ALEGRIA


Acho que se o Atlético, o clube da cidade que manteve à frente de sua prefeitura, por dois mandatos, o contador de uma firma de couros, por absoluta falta de candidatos de peso, fechasse as suas divisões de base, faria uma boa economia, já que são uma fábrica de pernas-de-pau. Aí com o dinheiro economizado poderia comprar mais alguns velhinhos que, pelo menos, iriam mantendo a chama da ilusão em sua imensa e maravilhosa torcida.


É o que eu acho, modesta e sofridamente...


(Antes de fechar o comentário, não posso deixar de registrar, no entanto, que a nossa alegria, que o nosso suposto time nos nega, quem a dá é o clube italiano que, por acaso, tem sede na cidade... É uma alegria sem fim, quá, quá, quá, quá, quá...)


14.11.09

 

UM GOLPE DE RISO

Hay Gobierno? - Claudius, Jaguar, Fortuna - Civilização Brasileira - Rio - 1964.

13.11.09

 

MEMÓRIA


A chegada de minha mãe a Belo Horizonte, depois da viagem ferroviária sofrida, não era a primeira. Ela já conhecia a cidade ainda nascente, com apenas 40 anos como capital, pois ficara aqui por algum tempo, já casada com meu pai, antes mesmo de ir a Rio Acima conhecer os pais de meu pai. Desse tempo, tenho uma fotografia, um instantâneo de rua, com os dois, Geraldo e Joaninha, no maior chique, a andar, de braços dados, provavelmente pela Afonso Pena. Desse tempo sei que, quando foi pela primeira vez a minha terra, fez, ainda na estação da Central de Belo Horizonte, na Praça Rui Barbosa, o conhecimento, primeiro conhecimento em Rio Acima, de dona Maria Pedrosa, sogra do meu tio Mundico, apresentada a ela por meu pai. A amizade durou até a extremada velhice a que as duas chegaram.

Nada muito preocupante, em retrospecto, nessa viagem noturna, nessa chegada solitária a Belo Horizonte de uma moça grávida, já nos últimos dias de gestação. Afinal, tratava-se de dona Joaninha, mulher decidida, autoconfiante, de personalidade independente, que, já no final da adolescência, ia apenas em companhia de uma irmã, a tia Maria, pouco mais velha que ela, trabalhar como doméstica, em casa de família com ligações em Entre Rios de Minas, no Rio de Janeiro, afastada, portanto, do pai que a criara e dos outros irmãos, situação que se radicalizaria algum tempo depois com o casamento da irmã com um rapaz de Congonhas do Campo, onde já morava outra irmã casada, a tia Marieta. Nessa situação, se constituíra como pessoa bem articulada socialmente e adquirira a profissão de modista com que se manteria, ajudaria os dois maridos que teve e criaria os cinco filhos.

12.11.09

 

PANEM NOSTRUM


SERENATA SINTÉTICA


Lua

morta


ccccccRua

cccccctorta


Tua

porta



Cassiano Ricardo


11.11.09

 

DEUS


Repetindo: a pergunta “Como é que Deus sente tudo isso?” não é uma pergunta histórica, mas o leitor do Tanach que faz essa pergunta encontrará uma determinada série de respostas se passou algum tempo estudando história e outra se não. Em sua “genealogia” histórica de Deus, acadêmicos como Albright, Cross e Smith acham que várias personalidades divinas reconhecíveis em fontes extrabíblicas deixaram traços nas páginas da Bíblia. Um crítico literário que conhece a obra deles pode projetar essa multiplicidade objetiva no caráter do Senhor Deus enquanto protagonista literário, transformando imaginativamente as inconsistências observadas no conflito interno experimentado por Deus. Dessa forma, a emergência do monoteísmo a partir do politeísmo pode ser recuperada para a literatura como a história de um Deus único em luta consigo mesmo.

O Tanach jamais deixou de ser essa história. Não é preciso acrescentar nada a ele — nenhuma especulação psicológica mais profunda, nenhuma revelação sensacional da última escavação arqueológica, nenhuma leitura nas entrelinhas — para que essa leitura seja possível. As contradições, latentes ao longo de todo o texto, jamais deixaram de ter um efeito nitidamente estético no leitor ou no ouvinte: o Senhor Deus sempre foi intermitentemente desconcertante, irritante, inconsistente ou arbitrário por causa delas. O conhecimento histórico simplesmente ajuda a tornar patentes esses conflitos, transformando os vagos tons de cinza da vida interior do Senhor em tonalidades claramente perceptíveis. Aqui o azul-celeste de El, ali os tons terrosos do “deus de nosso pai”, mais adiante o vermelho-sangue de Baal ou Tiamat ou a lembrança sempre verde de Asherah. Se a Bíblia é, ao fim das contas, uma obra de literatura, essas personalidades históricas distintas devem ser projetadas no — e depois novamente separadas do — Deus único, o monos theos, que ganhou existência quando elas se fundiram. Depois que Deus tiver sido compreendido em sua multiplicidade, terá de ser, em resumo, novamente imaginado em sua unidade esgarçada e difícil.

Só quando se faz isso é que a Bíblia pode ser enfocada como obra de arte mais do que meramente como uma obra imperfeita de história. Os historiadores em geral reconhecem a poderosa originalidade da síntese religiosa de Israel, mesmo quando não acreditam, em termos religiosos, que essa originalidade seja uma revelação do próprio Deus. Mas ao considerar a Bíblia apenas como a mais importante de muitas fontes religiosas na história da religião de Israel, eles deixam de perceber que o modo próprio de a Bíblia combinar diversas personalidades em um personagem complexo tem por finalidade tecê-las numa trama ao longo de uma história em que Deus — mais do que Israel — é o protagonista. A trama começa quando Deus sente o desejo de uma auto-imagem. A trama se adensa quando a auto-imagem de Deus torna-se um fabricante de auto-imagens e Deus se ressente disso. Desse conflito inicial emergem outros. A trama atinge sua crise quando Deus, diante de um exemplar único de si mesmo, fisicamente destroçado, mas moralmente exaltado, tenta ocultar sua motivação original e fracassa.

O movimento metodológico mais importante nessa releitura da Bíblia hebraica — e a razão por que ela pode ser chamada de uma biografia — é uma mudança de foco, dos atores humanos para o ator divino. Sem insultar nem contradizer o conhecimento histórico, é preciso permitir que seu personagem aflore por meio de uma outra série de perguntas críticas, porém mais subjetivas. Por que Deus criou o mundo? Por que, por razões tão frágeis, o destruiu logo depois da criação? Por que, depois de não haver demonstrado interesse pelas guerras da humanidade, de repente tornou-se ele próprio um guerreiro? Por que, não tendo esperado grande moralidade, se é que esperava alguma, tornou-se ele próprio um moralista? Quando seu pacto com Israel parecia romper-se, que conseqüência haveria para ele? Que tipo de vida estaria à sua espera depois do rompimento? Como ele enfrenta o fracasso em cumprir as promessas que fez por meio dos profetas? Qual é sua experiência de vida como um ser sem pais, sem esposa, sem filhos? O conhecimento histórico não pergunta nem responde perguntas como essas. A crítica sim. mas o conhecimento histórico judiciosamente empregado pode ensinar a crítica a reconhecer aquilo que está procurando no momento que o encontra.


Jack Miles
em Deus
uma biografia
Companhia das Letras. São Paulo.
1997.

9.11.09

 

ROSA-DOS-TEMPOS


Mas um certo receio Soropita devia também às mulheres, um respeito esquisito, em lei de acanhamento. A lá vinha tanta gente bem arrumada, com todo luxo, bons trajes caros, sapato novo, gravata fantasia, coisas. Não queria que o achassem caipirado, jambrão. Aí então ele se produzia razão de desculpa: ia greste, não fazia a barba, não mudava roupa — preferia se mostrar assim, por seu querer, senhor de altos farrapos. “...P’ra ver se elas não me querem; é melhor, volto, fico sossegado...” — se dizia. Por em frente das primeiras casas, ia passando. Ah, elas chamavam. Ele queria ter o ar sério, a cara e jeito curto de um homem ocupado. — “Ô, entra, Bem. Chega aqui, me escolhe. Vem gozar a gente...” Ele se chegava, delongo, com rodeio, meio no modo de um boi arriboso. Era uma dúvida pesada, uma vergonha o enrolando, quase triste, um emperro: aquelas mulheres regiam ali, no forte delas, sua segura querência, não tinham temor nenhum, legítimas num amontôo de poder, e ele se apequenava; mulheres sensatas, terríveis. Então, fazia um esforço seco, falava de arranco, se subia: — “Tenho tempo hoje não, moça. Não perca seus agrados...” “— Não perco, não, Bem. Vem ver o escondido. Exp’rimenta, que tu gosta: eu sou uma novilhinha mansa de curral. Não vou esperdiçar um homem como você...” Ele ainda se escorava, meio provocado, meio incerto: — “É deveras, menina! Você quer se encostar por riba de uma poeira destas?! Tou sujo, tou suado... Vim amontando burro...” Mas já a moça se agarrava, de abraço, ia-o puxando, para o quarto. O corpo dele todo se amornava grande, sabia só de seu sangue mesmo bater, nada ouvia, não via. Lá a dentro de portas, se empeava um pouco, cismado outra vez, precalço. Ainda bem que a mulher tinha muita prática, acendia cigarro, pedia licença para mandar trazer bebida, indagava se a boiada tinha vindo com transtorno ou com vantagem, encorajava-o com um engambelo mimoso, e de repente já estava solta, nuinha como uma criança, até queria ajudar a ele fazer o mesmo. De fim, ia ficando avontadinho, sem vexame nenhum de pressa, tomando tento miúdo em tudo, apreciando de olhos abertos o fino da vida, poupando o bom para durar bem, se consentia. Umas mulheres eram melhores, contentamento dobrado. Que encontrasse de todas a melhor, e tirava-a dali, se ela gostasse, levar, casar, mesmo isso, se para a poder guardar tanto preciso fosse — garupa e laço, certo a certo.



João Guimarães Rosa

Dão-Lalalão (O Devente)

em Corpo de Baile II

José Olympio. Rio de janeiro.

1ª edição. 1956.


8.11.09

 

COMPLEXO DE VIRA-LATA


Complexo de vira-lata, síndrome de perdedor. Há décadas e décadas em que perde todas. Quando se vai contar sua história, é uma longa e gloriosa epopéia de grandes derrotas.

No entanto, sua torcida é grandiosa e gloriosa. Uma torcida que não tem, há décadas que não tem um time que a mereça, da mesma forma como não tem, há décadas e décadas, os dirigentes que mereceria ter.

O que explica? Acho que a explicação é a decadência das Minas e de sua capital. Decadência de homens, de idéias, de instituições. Uma longa ladeira que vem sendo descida, implacavelmente, há décadas e décadas. Já teve políticos de projeção nacional, não tem mais. Quem leva a sério o garotão boêmio que as dirige? Já teve escolas públicas com qualidade de 1º mundo. Pessoas vinham de outros estados para estudar em seus colégios públicos. Não tem mais, nem na rede estadual, nem na municipal. Esta, aliás, destroçada, pelas décadas petistas de escola plural, com aprovação automática. Não tem imprensa. Os grandes jornais locais são uma verdadeira piada, de mau gosto, aliás, já que os seus humoristas são de quinta categoria. A população, neurotizada pela mediocridade ambiente, se limita a encher os barzinhos que ali proliferam como tiririca em terreno baldio, para as pessoas se agredirem mutuamente e falarem mal da vida alheia...

Aí não dá: apanha, apanha, apanha. Há décadas que vem apanhando. Mas eu não vou desistir. Embora já tenha escapulido fisicamente de lá, como faz, há muito tem feito, quem tem um mínimo de massa cinzenta na cabeça, cascando fora da mediocridade ambiente, do ponto de vista esportivo vou continuar sofrendo. Mas não este ano. Por ora basta. O ano que vem eu volto, pra ver se alguma coisa mudou.

7.11.09

 

OS NOVOS INCONFIDENTES 155


JOÃO CORSINO DE FREITAS

OFICIAL DE REGISTRO CIVIL E

TABELIONATO - ECOPORANGA/ES

Sanção: Aposentadoria.

D.O.: 03-11-1972, p. 9730.


JOÃO CRISTÓVÃO CARDOSO

SERVIDOR PÚBLICO

Sanção: Aposentadoria.

D.O.: 28-04-1969, p. 3598.

Obs.: Republicação D.O.: 17-07-1969.


JOÃO DA COSTA FRÓES

MARCENEIRO — MINISTÉRIO DA

MARINHA

Sanção: Aposentadoria.

D.O.: 16-09-1964, p. 8258.


JOÃO DA SILVA

SOLDADO — POLÍCIA MILITAR/SP

Sanção: Reforma.

D.O.: 29-07-1970, p. 5653.


JOÃO DAMASCENO BRANDÃO

FILHO

3º SARGENTO — MINISTÉRIO DO

EXÉRCITO

Sanção: Demissão.

D.O.: 07-10-1964, p. 9083.


JOÃO DE ABREU PINHEIRO

FIEL DO TESOUREIRO — MINISTÉRIO

DA FAZENDA

Sanção: Demissão.

D.O.: 07-10-1964, p. 9086.


JOÃO DE ARAÚJO

SUBTENENTE — MINISTÉRIO DO

EXÉRCITO

Sanção: Reforma.

D.O.: 14-09-1964, p. 8149.


JOÃO DE DEUS BORBA

2º SARGENTO — MINISTÉRIO DO

EXÉRCITO

Sanção: Reforma.

D.O.: 07-10-1964, p. 9080.


JOÃO DE DEUS GASSO

1º TENENTE — MINISTÉRIO DO

EXÉRCITO

Sanção: Reforma.

D.O.: 07-10-1964, p. 9077.


JOÃO DE DEUS GOULART

CERVEIRA

CORONEL DA ARMA DE CAVALARIA —

MINISTÉRIO DO EXÉRCITO

Sanção: Reforma.

D.O.: 09-10-1964, p. 9202.


JOÃO DE DEUS MELO

MAGISTRADO - PB

Sanção: Aposentadoria.

D.O.: 27-02-1969, p. 1748.


JOÃO DE DEUS NUNES SARAIVA

GENERAL-DE-BRIGADA — MINISTÉRIO

DO EXÉRCITO

Sanção: Reforma.

D.O.: 08-10-1964, p. 9137.


JOÃO DE MELLO RESENDE

ENGENHEIRO — COMPANHIA

HIDRELÉTRICA DO VALE DO

PARAÍBA - CHEVAP

Sanção: Dispensa de função.

D.O.: 09-10-1964, p. 9225.


JOÃO DE MOURA DIAS

CORONEL — MINISTÉRIO DO EXÉRCITO

Sanção: Transferência para a Reserva.

D.O.: 14-04-1964, p. 3313.

Sanção: Demissão.

D.O.: 07-10-1964, p. 9082.


 

BELO HORIZONTE

Detalhe da Praça da Liberdade, em Belo Horizonte

 

O CONTO BRASILEIRO


PAI CONTRA MÃE

A escravidão levou consigo ofícios e aparelhos, como terá sucedido a outras instituições sociais. Não cito alguns aparelhos senão por se ligarem a certo ofício. Um deles era o ferro ao pescoço, outro o ferro ao pé; havia também a máscara de folha-de-flandres. A máscara fazia perder o vício da embriaguez aos escravos, por lhes tapar a boca. Tinha só três buracos, dois para ver, um para respirar, e era fechada atrás da cabeça por um cadeado. Com o vício de beber, perdiam a tentação de furtar, porque geralmente era dos vintém do senhor que eles tiravam com que matar a sede, e aí ficavam dois pecados extintos, e a sobriedade e a honestidade certas. Era grotesca tal máscara, mas a ordem social e humana nem sempre se alcança sem o grotesco, e alguma vez o cruel. Os funileiros as tinham penduradas, à venda, na porta das lojas. Mas não cuidemos de máscaras.

O ferro ao pescoço era aplicado aos escravos fujões. Imaginai uma coleira grossa, com a haste grossa também, à direita ou à esquerda, até ao alto da cabeça e fechada atrás com chave. Pesava, naturalmente, mas era menos castigo que sinal. Escravo que fugia assim, onde quer que andasse, mostrava um reincidente, e com pouco era pegado.

Há meio século, os escravos fugiam com freqüência. Eram muitos, e nem todos gostavam da escravidão. Sucedia ocasionalmente apanharem pancada, e nem todos gostavam de apanhar pancada. Grande parte era apenas repreendida; havia alguém de casa que servia de padrinho, e o mesmo dono não era mau; além disso, o sentimento da propriedade moderava a ação. porque dinheiro também dói. A fuga repetia-se, entretanto. Casos houve, ainda que raros, em que o escravo de contrabando, apenas comprado no Valongo, deitava a correr, sem conhecer as ruas da cidade. Dos que seguiam para casa, não raro, apenas ladinos, pediam ao senhor que lhes marcassem aluguel, e iam ganhá-lo fora, quitandando.

Quem perdia um escravo por fuga dava algum dinheiro a quem lho levasse. Punha anúncios nas folhas públicas, com os sinais de fugido, o nome, a roupa, o defeito físico, se o tinha, o bairro por onde andava e a quantia de gratificação. Quando não vinha a quantia, vinha a promessa: “gratificar-se-á generosamente”, — ou “receberá uma boa gratificação”. Muita vez o anúncio trazia em cima ou ao lado uma vinheta, figura de preto, descalço, correndo, vara ao ombro, e na ponta uma trouxa. Protestava-se com todo o rigor da lei contra quem o acoutasse.

Ora, pegar escravos fugidos era um ofício do tempo. Não seria nobre, mas por ser instrumento da força com que se mantêm a lei e a propriedade, trazia esta outra nobreza implícita das ações reivindicadoras. Ninguém se metia em tal ofício por desfastio ou estudo; a pobreza, a necessidade de uma achega, a inaptidão para outros trabalhos, o acaso, e alguma vez o gosto de servir também, ainda que por outra via, davam o impulso ao homem que se sentia bastante rijo para pôr ordem à desordem.

Cândido Neves, — em família, Candinho, — é a pessoa a quem se liga a história de uma fuga, cedeu à pobreza, quando adquiriu o ofício de pegar escravos fugidos. Tinha um defeito grave esse homem, não agüentava emprego nem ofício, carecia de estabilidade; é o que ele chamava caiporismo. Começou por querer aprender tipografia, mas viu cedo que era preciso algum tempo para compor bem, e ainda assim talvez não ganhasse o bastante; foi o que ele disse a si mesmo. O comércio chamou-lhe a atenção, era carreira boa. Com algum esforço entrou de caixeiro para um armarinho. A obrigação, porém, de atender e servir a todos feria-o na corda do orgulho, e ao cabo de cinco ou seis semanas estava na rua por sua vontade, fiel de cartório, contínuo de uma repartição anexa ao ministério do império, carteiro e outros empregos foram deixados pouco depois de obtidos.

Quando veio a paixão da moça Clara, não tinha ele mais que dívidas, ainda que poucas, porque morava com um primo, entalhador de ofício. Depois de várias tentativas para obter emprego, resolveu adotar o ofício do primo, de que aliás já tomara algumas lições. Não lhe custou apanhar outras, mas, querendo aprender depressa, aprendeu mal. Não fazia obras finas nem complicadas, apenas garras para sofás e relevos comuns para cadeiras. Queria ter em que trabalhar quando casasse, e o casamento não se demorou muito.


Machado de Assis
Pai contra Mãe
em Os Cem Melhores Contos
Brasileiros do Século
Ítalo Moriconi
org., introd., e ref. bibliogr.
Objetiva. Rio de Janeiro.
2000.

6.11.09

 

DOM CASMURRO


CAPÍTULO XXIX


O IMPERADOR


Em caminho, encontramos o imperador, que vinha da Escola de Medicina. O ônibus em que íamos parou, como todos os veículos; os passageiros desceram à rua e tiraram o chapéu, até que o coche imperial passasse. Quando tornei ao meu lugar, trazia uma idéia fantástica, a idéia de ir ter com o imperador, contar-lhe tudo e pedir-lhe a intervenção. Não confiaria esta idéia a Capitu. “Sua Majestade pedindo, mamãe cede”, pensei comigo.


Vi então o imperador escutando-me, refletindo e acabando por dizer que sim, que iria falar a minha mãe; eu beijava-lhe a mão, com lágrimas. E logo me achei em casa, à espera, até que ouvi os batedores e o piquete de cavalaria; é o imperador!, é o imperador! Toda a gente chegava às janelas para vê-lo passar, mas não passava, o coche parava à nossa porta, o imperador apeava-se e entrava. Grande alvoroço na vizinhança: “O imperador entrou em casa de dona Glória! Que será? Que não será?” A nossa família saía a recebê-lo; minha mãe era a primeira que lhe beijava a mão. Então o imperador, todo risonho, sem entrar na sala ou entrando — não me lembra bem, os sonhos são muita vez confusos —, pedia a minha mãe que me não fizesse padre — e ela, lisonjeada e obediente, prometia que não.


— A medicina — por que lhe não manda ensinar medicina?


— Uma vez que é do agrado de Vossa Majestade...


— Mande ensinar-lhe medicina; é uma bonita carreira, e nós temos aqui bons professores. Nunca foi à nossa Escola? É uma bela Escola. Já temos médicos de primeira ordem, que podem ombrear com os melhores de outras terras. A medicina é uma grande ciência; basta só isto de dar a saúde aos outros, conhecer as moléstias, combatê-las, vencê-las... A senhora mesma há de ter visto milagres. Seu marido morreu, mas a doença era fatal, e ele não tinha cuidado em si... É uma bonita carreira; mande-o para a nossa Escola. Faça isso por mim, sim? Você quer, Bentinho?


—Mamãe querendo...


— Quero, meu filho. Sua Majestade manda.


Então o imperador dava outra vez a mão a beijar e saía, acompanhado de todos nós, a rua cheia de gente, as janelas atopetadas, um silêncio de assombro, o imperador entrava no coche, inclinava-se e fazia um gesto de adeus, dizendo ainda: “A medicina, a nossa Escola”. E o coche partia entre invejas e agradecimentos.


Tudo isso vi e ouvi. Não, a imaginação de Ariosto não é mais fértil que a das crianças e dos namorados, nem a visão do impossível precisa mais que de um recanto de ônibus. Consolei-me por instantes, digamos minutos, até destruir-se o plano e voltar-me para as caras sem sonhos dos meus companheiros.



Machado de Assis

em Dom Casmurro


5.11.09

 

AÉCIO E A MISÉRIA DA EDUCAÇÃO EM MINAS


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